Luz das estrelas

Amanda Suita

Há um ponto

onde o mundo recolhe o fôlego

e as coisas esquecem como se chamam.

Lá,

o silêncio pesa.

Não cai.

Sustenta.

Duas presenças o atravessam

como quem reconhece o frio anterior à memória.

Nada é dito.

Nada falta.

O instante se fecha

feito anel

sem dedo.

Alguém, um dia,

lançou ao vento

um traço impreciso,

um quase caminho.

Chamaram de acaso.

Mas o acaso

raramente é inocente,

tem vícios antigos.

Eu soube.

Certos sinais

não pedem leitura,

pedem sentido, vibração.

Seguimos sem forma.

E, ainda assim,

algo quase se escreve

no intervalo das línguas,

onde a palavra hesita antes de existir.

Guardo isso

como se guarda o escuro

depois do relâmpago.

O mundo lá fora

apressa seus ruídos,

traça linhas duras,

divide, mede, disputa,

confunde peso com valor,

posses com destino.

Aqui dentro,

o tempo anda descalço.

Algo repousa.

Não dorme.

Arde baixo.

Se um dia este poema

te alcançar sem aviso,

feito cheiro de chuva

em cidade quente,

não procures sentido.

Algumas coisas

não querem ser entendidas,

querem ser sentidas.

E se, numa noite qualquer,

uma luz tardia

te tocar os olhos

vinda de onde já não há estrela,

Sabe:

há brilhos que viajam

sem promessa de chegada.

E, ainda assim,

chegam.

  • Autor: Amanda Suita (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de janeiro de 2026 13:03
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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