Há um ponto
onde o mundo recolhe o fôlego
e as coisas esquecem como se chamam.
Lá,
o silêncio pesa.
Não cai.
Sustenta.
Duas presenças o atravessam
como quem reconhece o frio anterior à memória.
Nada é dito.
Nada falta.
O instante se fecha
feito anel
sem dedo.
Alguém, um dia,
lançou ao vento
um traço impreciso,
um quase caminho.
Chamaram de acaso.
Mas o acaso
raramente é inocente,
tem vícios antigos.
Eu soube.
Certos sinais
não pedem leitura,
pedem sentido, vibração.
Seguimos sem forma.
E, ainda assim,
algo quase se escreve
no intervalo das línguas,
onde a palavra hesita antes de existir.
Guardo isso
como se guarda o escuro
depois do relâmpago.
O mundo lá fora
apressa seus ruídos,
traça linhas duras,
divide, mede, disputa,
confunde peso com valor,
posses com destino.
Aqui dentro,
o tempo anda descalço.
Algo repousa.
Não dorme.
Arde baixo.
Se um dia este poema
te alcançar sem aviso,
feito cheiro de chuva
em cidade quente,
não procures sentido.
Algumas coisas
não querem ser entendidas,
querem ser sentidas.
E se, numa noite qualquer,
uma luz tardia
te tocar os olhos
vinda de onde já não há estrela,
Sabe:
há brilhos que viajam
sem promessa de chegada.
E, ainda assim,
chegam.
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Autor:
Amanda Suita (
Offline) - Publicado: 12 de janeiro de 2026 13:03
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 3

Offline)
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