Há pessoas que caminham
como se carregassem um sino por dentro.
Não fazem barulho,
mas tudo nelas reverbera.
Elas entram nos dias com um cuidado que não aprenderam em lugar algum.
Param antes de ferir,
olham duas vezes para o que parece simples,
sentem peso onde outros veem rotina.
As vezes tristes.
Mas são inteiras demais.
O mundo passa por elas
como vento por uma casa sem janelas:
nada fica intacto,
mas nada se perde completamente.
Essas pessoas amam
sem saber onde apoiar o excesso.
Amam como quem segura água nas mãos,
conscientes de que vai escapar
e mesmo assim insistem.
Há noites em que sentem
que algo está errado
sem conseguir apontar o lugar da falha.
Como se a realidade tivesse saído um centímetro do eixo, o suficiente para cansar a alma.
Elas seguem.
Pagam contas, respondem mensagens,
sorriem quando necessário.
Mas por dentro permanecem acordadas,
em vigília permanente,
escutando um chamado baixo
que ninguém mais parece ouvir.
Não querem salvar o mundo.
Só querem que ele não perca completamente o sentido.
Se doem,
é porque ainda sentem.
Se cansam,
é porque não aprenderam a fingir.
E talvez seja isso, essa recusa silenciosa em endurecer que as torne perigosas,
num tempo que prefere o anestesiado.
Quando tudo parece prestes a quebrar,
são elas que permanecem ali,
sem bandeiras, sem discursos,
apenas existindo com profundidade.
E isso, sem alarde,
mantém algo vivo.
Mesmo que todas as esperanças parecem terem se esgotado.
-
Autor:
Amanda Suita de Moraes (
Offline) - Publicado: 11 de janeiro de 2026 12:05
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2
- Usuários favoritos deste poema: Arthur Santos

Offline)
Comentários1
Admiro a sua capacidade de descrever emoções.
Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.