O SILÊNCIO DA PORCELANA

Ozana Anjos Santana

No canto mais silencioso da casa
há um trono branco, humilde,
que não pede reverência nem aplauso,
mas sustenta a dignidade do corpo
quando o corpo já não aguenta.

Ali, sentados em conforto quase sagrado,
entregamos à porcelana o que resta,
aquilo que o organismo já cumpriu.
O gesto é simples, cotidiano,
mas o milagre é profundo.

Um puxar de descarga
e o caos vira caminho.
Por canos escuros e engenhosos
viajam histórias do corpo humano,
segredos que ninguém vê.

Engrenagens trabalham em silêncio.
Sólidos descem, triturados,
transformados em cinza e esquecimento;
líquidos escorrem por veias técnicas,
obedientes à gravidade.

Filtrados por membranas pacientes,
seguem até que a água volte
a ser quase pura, quase inocente.
Nem todas essas máquinas do futuro
cabem ainda no presente.

Mas provam que até o íntimo do íntimo
é campo de ciência e pesquisa,
território de cálculo e cuidado,
onde o invisível importa,
onde mora a esperança.

Antes dele, o ar livre carregava doenças,
as cidades cheiravam à decadência,
e as fezes, expostas ao sol,
espalhavam mais de cinquenta males
como sementes invisíveis.

O vaso, simples herói doméstico,
reduziu infecções, salvou vidas,
sem jamais pedir crédito algum.
Ficou ali, discreto,
enquanto o mundo seguia.

Por séculos, homens anônimos pensaram
no destino do que ninguém queria pensar.
J. B. Rhodes, com patentes silenciosas,
Thomas Merda, menino pobre,
andando a pé até Londres.

Aprendeu a domar a água,
inventou um redemoinho perfeito,
tão eficiente e sonoro
que fez multidões esperarem em fila
para ouvir o progresso.

O povo viu, ouviu e acreditou.
Duzentas mil privadas depois,
Londres respirava melhor.
Foi uma revolução sem fábricas,
sem fumaça no céu.

Uma revolução feita de higiene,
privacidade e respeito à vida,
construída sem discursos,
sem monumentos grandiosos,
apenas com água e ciência.

Hoje, quase ninguém agradece
ao vaso sanitário.
Ele permanece ali, calado,
recebendo o que rejeitamos,
levando para longe o que nos faria mal.

Prova silenciosa de que civilização
não começa nos palácios,
mas nos banheiros escondidos,
nos fundos das casas,
na rotina invisível.

E enquanto ainda lutamos
pela universalização do saneamento,
ele nos lembra, sem palavras,
que o futuro saudável das cidades
passa por onde poucos querem olhar.

Mas todos precisam sentar.
Antigamente, a privada era buraco,
madeira tosca, pedra fria,
cabine no fundo do quintal,
onde a vergonha fazia companhia.

Sem canos, sem filtros, sem ciência,
o corpo se aliviava sozinho,
mas a cidade adoecia em silêncio.
Hoje, a porcelana é arte moldada,
resultado do tempo.

Não apenas branco como hospital,
mas bege suave, preta elegante,
marrom terroso, cinza urbano,
cores que dialogam com o concreto
e com o vidro.

Assim, o antigo trono evoluiu:
de necessidade escondida
a elemento de design e conforto.
O vaso agora não apenas serve,
ele afirma o futuro.

Afirma que até o ato mais humano
pode habitar o belo e o técnico,
o cuidado e a ciência.
E faz pensar, em silêncio:
tão genial quanto pisar a Lua
foi inventar o vaso sanitário 
pois um levou o homem ao espaço,
o outro manteve a humanidade viva
aqui na Terra, sentada, digna,
chamando isso de civilização.

  • Autor: Ozana Anjos Santana (Offline Offline)
  • Publicado: 10 de janeiro de 2026 19:45
  • Comentário do autor sobre o poema: O texto transforma um objeto cotidiano em metáfora da civilização, destacando seu papel silencioso na prevenção de doenças, na organização das cidades e na preservação da vida. Ao unir história, ciência e sensibilidade, o texto lembra que o verdadeiro avanço social começa nos gestos simples e no acesso universal ao saneamento básico.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: SALVADOR RAMOS DA GAMA
Comentários +

Comentários1

  • SALVADOR RAMOS DA GAMA

    Poderoso texto exalta! Com o um símbolo silencioso da civilização, mostrando como algo cotidiano e aparentemente banal é fundamental para a dignidade humana, a saúde pública e o progresso das cidades e uni poesia, história e ciência, ele revela que grandes avanços não estão apenas nos palácios ou monumentos, mas na rotina invisível do saneamento, que salva vidas, previne doenças e sustenta o futuro das sociedades. PARABÉNS, PELA ESCRITA!!!



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