Vício em impossibilidade

Anna Gonçalves

O amor que só funciona quando é proibido não é destino, é vício.

Eles se conhecem há algum tempo. Ela se muda para uma cidade diferente e ele permanece no mesmo lugar. Ele estuda na faculdade onde ela tinha se mudado; ela, por opção, passa na mesma faculdade onde ele estava. Acabam se encontrando novamente. Realizavam encontros no período do intervalo para conversar sobre a vida, onde o frio na barriga sempre acontecia. Os sentimentos um pelo outro aumentavam mais ainda.

 Ele, noivo. Ela, recém-namorando.

 E nesse turbilhão de coisas, acontecimentos na vida particular um do outro, os dois pensavam que tudo isso era um amor verdadeiro, de destino, por conta de forças maiores conspirando contra eles.

Mas a verdade era outra: ela se encantou com o jeito do qual ele se mostrava; ele só desejava ela por ser algo inalcançável, por ela ser um pouco ríspida, mas ao mesmo tempo mostrar que cedia, preocupada e cuidadosa. Mas quando ela se disponibiliza, ele perdeu o interesse... Amores impossíveis são literalmente um vício. O amor romântico ativa nosso sistema neural central tegmental ventral, a mesma região da cocaína e heroína. E quando o amor é rejeitado e inalcançável, essa mesma região permanece hiperativa, sustentando o desejo apesar da dor. Por isso que ambos se viciaram em atenção, no drama, na sensação de “eles contra o mundo”. O amor impossível gera adrenalina. Mas o amor real exige paciência.

Ela abandonou tudo para ficar com ele. Porém, a rejeição fez ela dar um passo para trás e voltar a dar uma chance para o seu antigo parceiro, ainda que ficasse com as lembranças e o sentimento de seguir adiante com sua vida.

 Ele encerra o seu noivado, conhece outras pessoas e passa a aproveitar sua vida.

Mas amor fácil não emociona quem se acostuma com o amor difícil e melancólico.

Ela entende, enfim, que amar a distância é mais fácil, porque amar de perto exige crescer, e crescer dói mais que sonhar e viver no mundo das ideias.

Ela confundia a repetição com destino: ficou anos orbitando um amor que nunca pousa.

Ela e ele não estavam lutando contra o destino, mas obedecendo a um modelo de amor viciado em impossibilidade. Enquanto o vínculo dependia de distância e adiamento, ele continuava químico, não relacional. Amor que só funciona quando é proibido não amadurece, não se constrói, não sustenta a presença.

  • Autor: Anna Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 9 de janeiro de 2026 20:28
  • Categoria: Conto
  • Visualizações: 3


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