Água é palavra antiga,
antes do verbo, antes do nome.
Escorreu primeiro nos dedos do tempo
e ensinou à vida o caminho do pulso.
Portável ou contaminada,
ela caminha conosco
no balde da criança,
no copo simples da casa humilde,
no cano invisível que canta nas paredes
das cidades que esqueceram sua origem.
Cristalina, reflete o céu
como se fosse espelho de Deus.
Suja, carrega o peso do abandono,
mistura de descuido, dor e silêncio.
Doce, embala o ventre da terra.
Salgada, guarda a memória dos oceanos
e das lágrimas que o mundo já chorou.
A água é utilidade e mistério:
lava feridas, sacia a sede,
faz germinar o pão,
move turbinas, apaga incêndios,
desenha rios como veias abertas
no corpo do planeta.
oh bendita seja a água,
a necessidade primeira:
aquela que sacia a sede,
que derrama um pranto quando falta,
e, no enigma da vida,
faz caber o universo inteiro no meu corpo.
Ela não pede licença ao tempo:
insiste, infiltra, persiste.
Quando lhe negam passagem, adoece o chão,
racham-se as bocas, empedra-se o futuro,
e o silêncio da seca
grita mais alto que qualquer sirene.
Por isso, cuidá-la é gesto de humanidade:
um pacto silencioso entre gerações.
Pois onde a água é respeitada, há amanhã;
e onde ela morre,
morre junto a possibilidade
de ainda chamarmos este mundo de lar.
A água não começou no mundo.
Começou no silêncio.
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Antes da palavra,
antes do medo,
antes do primeiro gesto humano,
ela já escorria no escuro,
ensinando à matéria
como permanecer viva.
-+-
Somos feitos desse aprendizado antigo.
Há água no intervalo da respiração,
no sal discreto da pele,
no peso invisível das lágrimas
que caem mesmo quando ninguém vê.
-+-
A água nos atravessa
como um pensamento contínuo.
Não pede licença.
Habita o sangue,
afina os ossos,
amolece o tempo
até que ele se torne memória.
-+-
Quando corre limpa,
o mundo parece possível.
O céu se debruça sobre ela
como quem busca perdão,
e a terra, aberta,
aceita novamente germinar.
-+-
Quando ferida,
a água carrega nossa falha.
Leva metais, cinzas, restos de descuido,
e devolve ao espelho do rio
o rosto cansado da humanidade.
Nada nela se perde:
tudo retorna como testemunho.
-+-
A água não julga,
mas lembra.
Guarda no fundo dos mares
o arquivo das eras,
os ossos do planeta,
as histórias que fingimos esquecer.
-+-
Rios são nervos expostos da Terra.
Se secam, o corpo adoece.
Se sangram, o mundo sente.
E nós, distraídos,
seguimos bebendo o que sobra
como se não fosse de nós mesmos.
-+-
Talvez salvar a água
seja apenas reaprender
a cuidar do próprio reflexo.
Porque, ao final,
não somos donos da nascente:
somos água provisória,
tentando atravessar o tempo
sem se tornar veneno.
Eu acordo pensando
se a vida é dura
ou se sou eu que aperto demais
os punhos.
***
A água, não.
Ela acorda correndo,
mesmo quando ninguém a observa,
sustentando o mundo
como quem arruma a casa em silêncio
e não deixa bilhete.
***
Dizem que sem cuidado há perdas.
Eu acredito.
Já perdi plantas, horários,
algumas certezas lavadas depressa demais.
Mas a água insiste:
com responsabilidade há continuidade,
como se o futuro fosse
um copo sempre meio cheio
desde que alguém lembre de fechá-lo.
***
Ela nos ama sem discurso,
sem manifesto,
sem pedir aplauso.
Ama escorrendo,
limpando o que pode,
carregando o que sobra.
Um amor desses, confesso,
me deixa desconfiada
e um pouco envergonhada.
***
Porque ela lava, mata a sede,
apaga incêndios,
salva o planeta
e ainda assim
eu esqueço a torneira aberta
como quem deixa uma promessa pingando.
***
A água me ensina,
com sua paciência líquida,
que quem endurece demais quebra,
e que fluir não é desistir,
é continuar sem se perder inteira.
***
Então tento aprender:
afrouxo os medos,
escorro os excessos,
e sigo —
nem sempre certa,
mas menos rígida,
como quem entende, rindo baixo,
que viver é um equilíbrio molhado
entre cuidar do mundo
e não se afogar em si.
- Autores: Ozana Anjos Santana, Josi Moreira, Sezar Kosta, Bulaxa Kebrada
- Visível: Todos os versos
- Finalizado: 21 de janeiro de 2026 23:30
- Limite: 6 estrofes
- Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
- Categoria: Não classificado
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