CORPO DO MUNDO

Ozana Anjos Santana


Água é palavra antiga,
antes do verbo, antes do nome.
Escorreu primeiro nos dedos do tempo
e ensinou à vida o caminho do pulso.
Portável ou contaminada,
ela caminha conosco
no balde da criança,
no copo simples da casa humilde,
no cano invisível que canta nas paredes
das cidades que esqueceram sua origem.
Cristalina, reflete o céu
como se fosse espelho de Deus.
Suja, carrega o peso do abandono,
mistura de descuido, dor e silêncio.
Doce, embala o ventre da terra.
Salgada, guarda a memória dos oceanos
e das lágrimas que o mundo já chorou.
A água é utilidade e mistério:
lava feridas, sacia a sede,
faz germinar o pão,
move turbinas, apaga incêndios,
desenha rios como veias abertas
no corpo do planeta.


oh bendita seja a água,
a necessidade primeira:
aquela que sacia a sede,
que derrama um pranto quando falta,
e, no enigma da vida,
faz caber o universo inteiro no meu corpo.


Ela não pede licença ao tempo:
insiste, infiltra, persiste.
Quando lhe negam passagem, adoece o chão,
racham-se as bocas, empedra-se o futuro,
e o silêncio da seca
grita mais alto que qualquer sirene.
Por isso, cuidá-la é gesto de humanidade:
um pacto silencioso entre gerações.
Pois onde a água é respeitada, há amanhã;
e onde ela morre,
morre junto a possibilidade
de ainda chamarmos este mundo de lar.

  • Autores: Ozana Anjos Santana, Josi Moreira
  • Visível: Todos os versos
  • Publicado: 6 de janeiro de 2026 23:15
  • Limite: 6 estrofes
  • Convidados: Público (qualquer usuário pode participar)
  • Categoria: Não classificado
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