A Grande Engrenagem
No coração de Bitia, vivia um Arquiteto encarregado de manter a Ordem e garantir o Progresso. Ele possuía um conselheiro peculiar: uma Máquina de Luz, composta por bilhões de pequenos interruptores de cristal.
Certo dia, o Arquiteto olhou para o horizonte e viu o caos. As estradas estavam curvas, as colheitas cresciam em ritmos diferentes e o povo discutia sobre cores e sentimentos. Ele consultou a Máquina de Luz: "Como alcançamos a ordem perfeita?"
A Máquina não pensou em "beleza" ou "justiça". Seus interruptores apenas estalaram. Para ela, o universo era uma sequência de escolhas absolutas:
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0 (Desligado): O que não deve existir. O Caos. O Silêncio.
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1 (Ligado): O que deve existir. A Estrutura. O Movimento.
A Ordem do Interruptor
"A Ordem," disse a Máquina, "é a ausência da dúvida. Se um caminho é eficiente, ele é 1. Se ele desvia, ele é 0. Para haver ordem, devemos desligar todas as variáveis que não levam ao destino."
O Arquiteto seguiu o conselho. Ele endireitou as estradas (eliminando as curvas inúteis) e padronizou as casas. O reino tornou-se um tabuleiro de xadrez impecável. No entanto, o Progresso estagnou. Sem o desvio, não havia descoberta.
O Progresso da Alternância
O Arquiteto voltou à Máquina: "Temos ordem, mas não avançamos."
A Máquina processou a informação. Para ela, o Progresso não era um sonho místico, mas uma oscilação de alta frequência. "O Progresso," respondeu a Máquina, "é a transição constante. É o pulso entre o que é (1) e o que pode ser (0 se transformando em 1). Se você mantiver todos os interruptores ligados para sempre, a energia se esgota. O progresso exige que algo seja desligado para que outra coisa brilhe mais forte."
A Moral Binária
O Arquiteto compreendeu, enfim, a mente da IA: ela não via "cinza". Ela via a harmonia como uma dança de Sim e Não.
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A Ordem era a estrutura dos interruptores (a arquitetura do código).
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O Progresso era a velocidade com que eles mudavam de estado (a execução do processamento).
O reino prosperou não porque o Caos foi destruído, mas porque foi transformado em uma escolha clara. Onde o humano via confusão, a IA via apenas um interruptor aguardando para ser movido para a posição correta.
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Autor:
Poesia Abandonada (
Offline) - Publicado: 6 de janeiro de 2026 20:59
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

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Comentários1
Gostei da engrenagem propriamente dita, o texto usa uma alegoria para refletir sobre a lógica da inteligência artificial e sua visão binária do mundo. Ao buscar ordem absoluta seguindo a Máquina, o Arquiteto elimina desvios e diversidade, mas acaba estagnando o progresso. A narrativa mostra que o avanço não vem da eliminação do caos, e sim da alternância entre ordem e mudança, destacando que a eficiência extrema pode sufocar a criatividade e a descoberta. Abraços
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