Certa manhã, ao cruzar o portão de casa, um jardineiro avistou, em meio ao jardim, uma flor como jamais vira — bela em sua plenitude, perfeita em cada detalhe. Seu perfume era inimitável, e aos olhos do homem, ela resplandecia como obra divina. No entanto, ao redor dela, cresciam espinhos — sombras afiadas que a feriam em silêncio.
Com o tempo, o jardineiro fez-se amigo da flor. Cuidava dela com zelo, protegendo-a dos espinhos que insistiam em se aproximar. Sua felicidade era silenciosa genuína, mas constante. Ainda assim, com o passar das estações, nasceu dentro dele uma pergunta: por que a flor não se afastava dos espinhos que tanto a faziam sofrer? Por que aceitava, com tão terna resignação, a dor que eles lhe causavam?
Foi então que ele compreendeu: ferir era da natureza da flor — ou talvez fosse dos espinhos. E amar, cuidar, mesmo diante da dor, era da natureza do jardineiro.
Numa noite fria, envolta em névoa e silêncio, ele retornou ao jardim. Os olhos cheios da mais pura tristeza, o coração pesado. Aproximou-se da flor e, com um último abraço, despediu-se. Partiu.
Dias depois, o jardineiro voltou. O jardim era o mesmo, mas algo lhe faltava. Onde antes havia cor e perfume, agora restava o silêncio. Os espinhos haviam consumido a flor.
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Autor:
Renato Lima (
Offline) - Publicado: 6 de janeiro de 2026 10:44
- Categoria: Não classificado
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Offline)
Comentários1
A verdade é que tudo passa no tempo!!! Parabéns!
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