O vento

Gustavo Felipe

Escrevo. E ouço as palavras dizerem que nada do que está aqui é meu. Não o vejo, mas o sinto quando ele vem: eis que temos aqui a Poesia. Ela não oferece signos nem linguagem específica, não respeita sequer os limites do idioma. Flui como o próprio vento, tão espontânea que nem se sabe como foi escrita, mas desenhada numa geometria impecável de sentimentos.
Esse vento traz palavras que não são minhas, uma safra de letras colhida em desertos de pensamentos distantes. Sou apenas a sombra momentânea onde o sopro da inspiração descansa antes de partir, seguindo seu curso para outras línguas, outros rostos e outros tempos.
Cruza o muro que a vida ergueu entre nós. Mesmo que o rumo traçado tenha mudado de direção, o vento não se rompe. Escrevo, atento que o vento é apenas o ar em movimento. Triste destino de ser Vento sem se poder libertar. Estou preso aos meus pensamentos como o vento está preso ao ar.
Quando eu já não existir, um dia, serei a poeira levada por esse vento, tornando-me apenas uma brisa de lembrança. Serei como o ar que te toca, um sopro invisível que vem do mar.
E nas solidões das tuas noites, ressoarei como uma melodia profunda: Estarei nas brisas. Talvez, nesse dia, talvez eu não precise mais buscar um ponto fixo; terei aprendido a simplesmente voar como o vento.

  • Autor: Gustavo Felipe (Offline Offline)
  • Publicado: 5 de janeiro de 2026 09:47
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 7


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