Ruína

SADE

Ruína

Existir é acordar
com pregos sob a pele
e fingir que são ossos.

É abrir os olhos
e sentir o mundo empurrando o crânio
como se a realidade fosse grande demais
para caber dentro de um corpo humano.

Nasci com algo quebrado
que ninguém soube nomear.
Chamaram de poesia,
de pensamento demais,
de drama.
Mas era um vazio com dentes.

A vida não entra em mim
ela rasga,
arranha,
cobra aluguel da alma
e ainda reclama da bagunça.

Carrego um coração
que bate como um erro mecânico,
uma máquina velha
programada para repetir
o mesmo sofrimento
até enferrujar de vez.

Brinco com a morte
não por coragem,
mas porque ela é honesta.
Ela não promete futuro,
não vende sonhos parcelados,
não mente dizendo
“vai passar”.

A vida mente o tempo todo.

Ela diz: aguenta.
Ela diz: melhora.
Ela diz: vale a pena.
Enquanto enfia as unhas
cada vez mais fundo
no que ainda resta de mim.

Sou feito de noites acumuladas,
de pensamentos que apodreceram acordados,
de perguntas sem resposta
ecoando como passos
numa igreja abandonada.

Deus nunca respondeu.
O silêncio foi a única oração devolvida.

Meu corpo anda,
mas minha alma rasteja.
Cada dia é um teatro macabro
onde finjo estar inteiro
para não assustar quem ainda acredita.

A esperança morreu jovem em mim.
O que sobrou foi esse cinismo cansado,
esse humor ácido
de quem entendeu cedo demais
que existir não tem manual
nem propósito garantido.

Só impacto.

Só perda.

Só essa consciência maldita
que sabe demais
para ser feliz
e sente demais
para ser estável.

A dor não é um grito.
É um peso constante,
um chiado no fundo da mente,
uma presença sentada no canto do quarto
observando tudo
sem nunca ir embora.

Sou sombrio não por estética,
mas por anatomia da alma.
Tudo em mim é sombra,
rachadura,
ruína que ainda respira.

E mesmo assim continuo.
Não por escolha.
Por inércia.
Por essa crueldade biológica
que chama sobrevivência
de virtude.

Se existir é um castigo,
então sigo cumprindo pena,
arrastando meus dias
como correntes invisíveis,
esperando não o fim,
mas o silêncio.

Aquele silêncio
onde finalmente
não precisarei
sentir.

  • Autor: SADE (Offline Offline)
  • Publicado: 5 de janeiro de 2026 09:45
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 5
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