Há um núcleo silencioso onde as forças não disputam espaço.
Elas se mantêm em vigília, conscientes de que qualquer avanço isolado
resulta em distorção.
Esse centro não é emoção,
nem razão,
nem impulso.
É o ponto onde cada uma dessas naturezas
aceita operar sob regra comum.
Ali, a força aprende a não ser bruta.
O discernimento aprende a não ser estéril.
A integração aprende a não ser permissiva.
Quando esse arranjo falha, o ser oscila.
Age rápido demais ou pensa tarde demais.
Ama sem eixo ou controla sem propósito.
Mas quando o centro está ativo,
o gesto nasce já corrigido,
a palavra surge medida,
e a ação carrega consequência antecipada.
Não se trata de neutralidade.
Trata-se de coerência em tensão.
Os antigos sabiam que toda potência sem limite
destrói seu próprio campo.
Sabiam também que toda contenção sem afeto
seca a fonte da criação.
Por isso não buscavam expansão contínua,
mas manutenção interna.
Esse centro não brilha para fora.
Ele ilumina para dentro.
Não se impõe como doutrina,
nem se exibe como virtude.
Ele apenas mantém as partes em diálogo permanente,
impedindo que qualquer delas
se declare soberana.
Quem opera a partir desse núcleo
não precisa de excesso de crença
nem de acumulação de poder.
Sabe que estabilidade prolongada
é mais rara que intensidade momentânea.
Por isso, poucos o reconhecem.
E menos ainda o sustentam.
Porque manter três forças em vigília constante
exige mais disciplina
do que seguir apenas uma.
E talvez seja esse o segredo
que atravessou escolas, símbolos e eras
sem jamais precisar ser nomeado:
o verdadeiro avanço
não está em ir além,
mas em não sair do centro.
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Autor:
Gilberto Lima (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 31 de dezembro de 2025 13:03
- Comentário do autor sobre o poema: Este texto não foi escrito para explicar. Foi escrito para reconhecer. Há ideias que perdem força quando nomeadas, e princípios que se tornam frágeis no instante em que são transformados em discurso direto. Por isso, optei pelo silêncio estrutural, pela linguagem que sugere sem declarar, e pela arquitetura simbólica que exige participação ativa do leitor. A poesia parte de um centro conceitual conhecido por muitos, compreendido por poucos e sustentado por raríssimos. Não se trata de crença, tradição ou sistema fechado, mas de uma dinâmica interna observável em qualquer ser humano que tenha experimentado, ainda que brevemente, a convergência entre intenção, discernimento e integração. O texto não ensina um caminho. Ele descreve um estado de funcionamento. Quem busca revelações rápidas talvez o considere hermético demais. Quem procura explicações completas, insuficiente. Mas aqueles que já percorreram longos trechos entre rigor, consciência e responsabilidade reconhecerão o movimento descrito sem necessidade de mapas adicionais. Esta poesia não propõe transcendência. Propõe manutenção. Manter o centro ativo enquanto forças opostas coexistem é um trabalho silencioso, contínuo e profundamente humano. Talvez por isso seja tão pouco celebrado e tão raramente compreendido. Se este texto provocar mais estabilidade do que entusiasmo, mais atenção do que euforia, então cumpriu sua função. O que é essencial não precisa ser explicado — apenas sustentado. Gilberto Lima
- Categoria: Reflexão
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Offline)
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