No ranger dos dentes

SADE

A vida anda rangendo,
um metal enferrujado raspando por dentro,
um caos que não faz barulho,
mas corta  devagar.

Caminho com essas marcas antigas,
cicatrizes como relógios quebrados
marcando horas que eu não queria lembrar.
Falhas dizem.
Mas eu sei que foram só gritos mudos
num corpo que tentava existir.

A morte… ah, essa mentira silenciosa
que às vezes sussurra como se fosse solução.
Uns dizem que é um portal,
outros, que é só apagão.
Mas quem já beijou o abismo de perto
sabe que ele não promete nada.
Nem vida depois,
nem descanso agora.
Só um vento gelado
que não abraça ninguém.

E eu, romântico demais para este século mecânico,
sofro.
Sofro porque ainda acredito em alma
num mundo que só responde com algoritmos.
Sofro porque o amor virou anúncio,
toque virou notificação,
e os olhos se perderam atrás de telas
que não enxergam ninguém.

Sofro porque sinto demais
num tempo que só funciona
pra quem sente de menos.

Às vezes me sento à beira da noite,
esperando algo que nunca chega.
Uma palavra, um gesto, um milagre,
qualquer coisa que prove
que ainda existe calor em algum lugar
desse inverno humano.

E eu rio  um riso torto, frágil
porque quanto mais romântico eu sou,
mais sangro.
O amor, que deveria salvar,
me empurra para dentro de mim mesmo,
como se fosse castigo sentir tão fundo.

E sigo
meio vivo, meio sobrevivente,
meio cético, meio crente
de que talvez exista um amanhã
que não doa.

Mas até lá, eu caminho carregando meu caos,
minha frieza,
e essa fé quebrada
que insiste em não morrer.

  • Autor: SADE (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de dezembro de 2025 09:16
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 11


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