Carrego um caos que me acompanha,
um bicho indomável que dorme no meu peito
e desperta sempre que o mundo parece pequeno demais.
Há dias em que ele ruge, fere, arranha as paredes do meu ser,
querendo fugir, querer partir,
como se a própria existência fosse curta
para tanta inquietação que carrego.
Sou filho do ar e do equilíbrio,
mas dentro de mim mora o desequilíbrio mais honesto,
a balança sempre oscilando entre o tudo e o nada,
entre confiar e desconfiar,
entre querer ficar e desejar partir.
Sou libriano
e isso significa sentir o mundo como lâmina fina sobre a pele,
desejar justiça até quando ninguém vê,
e temer entregar o coração porque ele, frágil, já conhece os abismos.
Caminho entre sombras que só eu entendo.
A solidão não me assusta
ela me abraça, me molda, me repara.
É nela que me encontro,
é nela que descanso,
é nela que desaba a máscara que carrego para sobreviver.
E mesmo quando pesa, eu a amo como quem ama algo inevitável,
porque ali, no silêncio,
sou eu sem esforço, sem ruídos, sem máscaras.
Escrever…
ah, escrever é meu milagre íntimo.
É quando a alma sangra sem vergonha,
quando o peito se abre como porta antiga rangendo
e eu deixo o mundo olhar para dentro
não por vaidade,
mas porque esconder seria morrer sufocado.
Cada palavra que coloco no papel
é uma veia que se desfaz da pressão,
é um grito silencioso que vira poesia,
é a minha forma de existir sem pedir licença.
Sou selvagem.
Sim, selvagem.
Mas de uma selvageria calma, profunda.
Não a fúria que destrói,
mas a força que observa, respira, analisa e só depois ataca.
Um lobo que aprendeu a ouvir o vento
e a entender que o silêncio tem mais respostas
do que a fala apressada do mundo.
Sou calmo porque dentro de mim
já existe tempestade suficiente,
e quem já vive em furacão
aprende a ser brisa por misericórdia própria.
Amo o silêncio.
Amo como ele me veste,
como ele me guia por dentro,
como ele fala comigo quando o mundo se cala.
Ouço mais do que falo,
não por timidez,
mas porque sinto que cada palavra gasta é uma parte de mim entregue.
E nem todos são dignos das minhas verdades,
nem todos merecem minhas dores,
nem todos entendem o caos que vibra
por trás dos meus olhos quietos.
Às vezes, confesso,
a escuridão é mais casa do que a própria luz.
Ela me acolhe, me escuta,
não me exige sorriso, postura, explicação.
Ali, no breu, estou inteiro.
Ali, no breu, não preciso ser forte, nem perfeito, nem claro.
E quando o peso da existência aperta o peito
e a alma pede descanso,
eu penso não com medo,
mas com uma sinceridade quase suave
na paz que eu não encontro aqui.
Não é morte o que desejo,
é descanso.
É um lugar onde o caos se renda,
onde a balança finalmente pare,
onde o lobo interno cesse o uivo.
Uma paz de espírito que sei que existe
em algum ponto onde o mundo não chega.
Mas enquanto essa paz não vem,
eu escrevo.
E enquanto escrevo,
vivo.
E enquanto vivo,
sangro poesia no papel, causo leve e desconforto
para que quem me leia sinta o peso e a beleza
do labirinto que me habita.
Porque eu sou isso:
um caos que ama o silêncio,
uma alma que carrega sombras,
um olhar que ouve mais do que fala,
um ser que deseja paz
mas ainda encontra sentido
em transformar dor em palavra,
solidão em arte,
noite em verdade.
Eu sou o abismo e a ponte.
Sou o médico e o monstro.
Sou o caos e a calma.
Sou a escuridão que sonha com luz.
Sou a alma que escreve
para não se perder de si mesma.
E enquanto houver quem leia,
eu existo
transparente, selvagem, silencioso,
intenso demais para caber inteiro no mundo,
mas teimoso demais para deixá-lo agora.
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Autor:
SADE (
Offline) - Publicado: 11 de dezembro de 2025 10:26
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 10
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