Hoje acordei com a impressão
de que meu anjo da guarda
assinou um pedido de férias —
e saiu ligeiro, sem bilhete,
sem aquele aviso tênue
que costuma estremecer o ar
antes das coisas darem errado.
Logo cedo, tropecei no passo
que sempre foi seguro;
a chave caiu do bolso
como quem decide desertar;
o café queimou na xícara
e o relógio, zombando,
correu um pouco mais rápido
só para me ver perder o ônibus.
No meio da rua,
o vento soprou contra,
como se fosse cúmplice
de uma travessura cósmica.
E eu aceitei o jogo:
cada fio desarrumado,
cada ruído sem dono,
cada desencontro inesperado,
me dizia a mesma coisa —
estou por minha conta.
Até as palavras, que sempre me vinham prontas,
resolveram tirar folga:
tropeçaram umas nas outras,
deixaram frases sem chão,
me fizeram repetir pedidos
para ouvidos distraídos.
Mas, apesar do mundo torto,
de um dia que escorrega dos dedos
como água inquieta,
há algo que ainda me costura ao caminho:
um lampejo breve,
quase tímido,
como quem volta do descanso
ainda se espreguiçando.
E é nesse brilho curto
que deixo minha fé repousar —
na certeza mansa
de que as férias do meu anjo
estão perto de acabar,
e que, em algum momento,
ele vai bater no ombro do destino
e dizer baixinho:
“Pronto.
Estou de volta.”
-
Autor:
Bulaxa Kebrada (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 5 de dezembro de 2025 14:17
- Comentário do autor sobre o poema: Nos dias em que tudo parece conspirar contra nós, é fácil acreditar que perdemos nosso eixo. Cada pequeno fracasso pesa mais do que deveria, como se o mundo inteiro tivesse saído do prumo de uma vez. Ainda assim, um gesto mínimo — um pensamento calmo, um respiro mais fundo — pode devolver a sensação de que não estamos totalmente desprotegidos. Às vezes, basta esse lampejo para lembrar que o caos também passa.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 9
- Usuários favoritos deste poema: Luana Santahelena, Vênus Não Terra

Offline)
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