Na era dos amores líquidos

gustavoaln

No século das janelas luminosas,
onde corações deslizam o dedo e não a alma,
o amor tornou-se eco fino,
sombra de um pássaro que esqueceu de cantar.

As promessas vem embaladas em brilho,
feito ouro falso vendido na feira do instante.
E cada jura, tão leve,
voa antes de tocar o chão.

Alegoricamente, vejo o amor
como um barco de papel lançado ao mar moderno:
afunda antes de abrir as velas.
E nós, marinheiros do efêmero,
aprendemos a nadar sozinhos.

Talvez a solidão seja uma casa silenciosa
que, embora fria, não mente.
Ali, ao menos, o espelho não vira as costas,
e o coração, cansado, pode se ouvir bater.

Mas há um sopro distante,
um horizonte que não se corrompe,
um céu onde não se negocia afeto.
É ali, na promessa do divino,
que a alma cansada guarda sua última esperança.

E talvez seja só na outra vida,
com o peso do mundo enfim deposto,
que o espírito, lavado de seus enganos,
encontre um amor que não trai,
uma paz que não desaparece,
e um abraço que não morre.

  • Autor: gustavoaln (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de novembro de 2025 02:46
  • Comentário do autor sobre o poema: A reflexão sobre o amor em vida ser na realidade uma guerra espiritual para ser aceito em alguma religião e deixar de contemplar com o amor líquido e passageiro que a atualidade dos amores terráqueos nos proporciona.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 0


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