No estofado azul, gasto, de vinil repousa as folhas presas por espiral, Onde a cidade passa em ritmo febril, Não se esquece a carteira ou o guarda-chuva vão, Mas fica um verso, um pedaço do coração.
A caneta que sangra a alma em rascunho, Traça no caderno o seu próprio caminho. E a pressa da vida, o ponto de descida, Deixam a página aberta, mal-concluída.
Ali jaz a estrofe, curva, imperfeita, Sobre o amor que se esvai, a dor que ajeita, A saudade do sol ou a chuva no vidro, Um desabafo breve, por ninguém lido.
O ônibus arranca, trepida no asfalto, E o poema, sozinho, se sente mais alto. Testemunha silenciosa, anônima, Da jornada de todos, uma pantomima.
Quem sentará ali, sobre a tua rima? Será o executivo, a moça, a avó que teima? E pensarão, talvez, que é um bilhete mudo.
É um grito retido, uma prece sincera, Uma flor de papel que ninguém espera. E, quando a faxina varrer o dia exausto, O poema abandonado será?
Mas, por um instante, na rota comum, Ele foi luz, ele foi arte, ele foi alguém. Um relicário de sonhos no banco vazio, A poesia que ficou, à mercê do estio.
Um adeus sem volta, um suspiro no ar.
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Autor:
Poesia Abandonada (
Offline) - Publicado: 27 de novembro de 2025 00:04
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 11
- Usuários favoritos deste poema: SaseumiH

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