A dissecação de uma idiota

Anna Gonçalves

Ora... Decidi por este estranho curso da alma, não um mero estudo, mas uma dissecação perante o espelho cruel da minha propria consciência, conduzida por aquele silencioso confidente, meu terapeuta. E o que se revela? Nem verdades, nem mentiras, mas o fim de um ego interior.

Ciclos viciosos... sim, conheço esses meus demônios íntimos! Eram correntes forjadas não em ferro, mas na mais fraca de todas as substâncias, a minha própria vontade. Uma vontade doentia que, paradoxalmente, achava prazer na própria humilhação, repetindo a pantomina infinitamente, esperando um final diferente daquela mesma "dor". Se é que era dor...

E os amores? Eu fugia deles? Não, senhor. Antes, corria para lhes oferecer minha alma como um tapete para que pisassem. Era uma idiota, uma sublime idiota que confundia abnegação com salvação! Alimentava os egos alheios, esses ídolos de barro, com as lascas de minha própria dignidade, só para sentir o calor ilusório de ser necessário à tal da sua grandeza fictícia.

As amizades... ah, são poucas. Pois exijo delas o que talvez não exista, uma verdade absoluta, um amor incondicional que nem mesmo eu posso dar e até mesmo oferecer. É a minha culpa? É a culpa deles? É a maldição de nossa época, onde cada alma está condenada ao seu próprio cubículo, a seu 'quadrado', como diz. Nem mesmo os laços de sangue quebram esse pensamento fundamental.

Os meus pais... culpa? Que ideia mesquinha a minha. Eles são tão culpados quanto eu; isto é, infinitamente culpados e infinitamente inocentes. Erraram por um certo amor, por ignorância, por medo, pelos mesmos crimes a qual agora tenho medo que eu cometa. São meus irmãos em algumas desgraça, não meus juízes...

E eu... eu, um ser rasteiro e cheio de vergonha, ainda ouso nutrir uma ideia insuportável a de que tenho um propósito aqui. É a mais orgulhosa das vaidades ou o último suspiro de minha dignidade? Não importa. O importante... O único fator importante é que... é que esta agonia mesma é o prelúdio. Que nesta luta contra o próprio nada, o homem em si, mesmo derrotada, prova sua grandeza. A busca incessante, ainda que sem esperança, é a única resposta que não nos humilha por completo e que nos faz ter a fé e que ainda faço parte de um todo, e que conforta dos meus erros particulares, como a linha que liga cada ser desta época da qual estou inserida. 

  • Autor: Anna Gonçalves (Pseudónimo (Online Online)
  • Publicado: 21 de agosto de 2025 15:59
  • Comentário do autor sobre o poema: Apenas uma ideia...
  • Categoria: Carta
  • Visualizações: 7


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