As ruas, neste presente momento, onde o luar junto com as luzes amarelas, outras brancas, dos postes competiam entre si, andavam calmas, e a brisa serena que acompanhava colidia sua face ao nada montando um acústico de sua característica. Enquanto o orvalho já se formava e as gotas d’água respingavam em poças permeando sua deságua na história de seu afluente, a sublime aranha, que já teceu sua teia, esconde-se debaixo de uma folha. Aos sons do nada, via-se transparente o que seria uma breve névoa entre os troncos das árvores, que misturavam com seus líquens em cor. Assim dava-se mais um véu de noiva à fauna a fora.
O seu sol viria em horas. As andorinhas, colibris, bem-te-vis e galos cantariam apenas em horas. Nessa fase do crepúsculo, resguarda a angústia dos bichos, para se mostrar uma nova, ao olharem para o céu e não se identificarem com seus revestimentos, penas, crostas ou couros rasgados. As flores, rosas desbotadas e hortênsias ainda verdes, não serão beijadas pelos outros insetos, contudo – a angústia, pernoite, consta apenas em horas.
Na coluna do meio-fio, a natureza ainda per capita sua resistência em desalento, ervas daninhas proliferam – o que chamam sua praga, natureza em silêncio. O asfalto esburacado, imundo e pueril, seca-se o sangue dos sentimentos maltratados dos homens em tons de amarelo e branco, contudo tinha sua identificação na cor preta do seu chão, por hora. Entre pedras, lascas de vidro e lixo, que o vento levou ao paralelo das ervas daninhas, mostra-se um piso rachado aos pedaços. Foi cimentado diversas vezes, identificando-se com todo tipo de marca de cimento, que desta vez preferiu ficar estilhaçado moldado à ervas daninhas, consta horas. Entre suas marcas rachadas no chão, levaram a um muro desalinhado de uma casa, para ele, também, por horas. Em cima, cacos de vidro colados com cimento. Portão de correr, com uma de suas rodas estragadas, da cor mais amarronzada, que se identifica assim.
Passando pela garagem sem carro, paredes caindo seus rebocos e sua tintura, hidrômetros ao chão, ao lado um jardim morto que dá defronte a uma janela ainda aberta. Vidros sujos e velhos, um quarto empoeirado na profundidade desse plano artesanal. Duas portas. Uma suíte, escrivaninha preta com papeis jogados, letras, rascunhos, algo que resulta da polissemia da linguagem. Ao lado um aveludado teclado, sujo de velhice, também, seu plástico mostra sua inutilidade, por hora. Um leito de solteiro com seus pés rangendo dores ainda de uma mesa de jantar, um criado mudo e depois em tronco, apenas em horas. Segura dois colchões de espuma sepultados em lençois brancos que nele mergulhava-se, do nariz aos pés, um corpo nu.
Os pés de mantra hidratados com seus calos rotineiros, calcanhar e tornozelos, circulares e delicados. Suas canelas, desgostosas de doce, que agora transpira o salgado dos seus sais, no seu suor. As coxas, a mais grossa das partes deste, macias até seu fêmur. A curvatura da cintura pairando no violino, na nota mais afiada, começava sua pélvis. As costelas acabavam, em relação ao busto, com o tamanho da mão de um rapaz. Seus seios alcançavam o fim da dança franzina que mostrava o esqueleto. Redondos, pequenos e pontudos. Subindo na sua escápula, chamativa magreza da fome, dando voltas na clavícula montanhosa. No pescoço, bem se vê suas artérias e os ossos de sua coluna. Sua pele majestosamente mostrava suas veias verdes, contando algumas roxas. Maxilar redondo na medida. Dentre a maré, sua boca azulada respirava e inspirava a água do leito, que jogava pouca poeira para cima, tremia de frio, em suspiros, que viera da janela. Cabelos compridos, negros e soltos, boiando em mar salgada dos colchões. Seu nariz pontudo e chamativo, moribunda com força uma pequena gripe. Das sombras inimagináveis desse corpo, além desse véu breu de seus cabelos, uma decadência sublime da alma dos seus olhos em olheiras gigantescas. Marcas de expressão que contemplem o primeiro pecado do homem, junto com os cílios que se movem acima e abaixo nessa dança que evolui a liquidez da razão humana. A cor de nada dos olhos, cintilam mais os nervos de aço das janelas desse coração. A atenção no limiar do branco – do nada, para o denso escuro das nebulosas íris. Notório até para um cego enxergar, estavam ainda abertos, ao lado da noite que devaneia, por hora, sua melancolia.
Um trabalho complicado para um poeta descrever, diferente para aquele que é maldito. Mesmo abertos pareciam fechados, contudo – fechados pareciam abertos. Apesar disso compensa no tamanho esmagador deles, e no começo, nesse limiar da carne e da pele, aparentavam ser amendoados, e cortando esse aparente trazia em silêncio um envolto quebrado. Rachava sua córnea, as pálpebras levemente caídas. Não escondia sua reação aos sentimentos. Se não franzia a testa, para assim mostrar suas grossas sobrancelhas, ou mostrava alguma inquietação no rosto, com a exceção das raras vezes que sorria ou das poucas vezes que chorava, seus olhos mostravam uma pequena raiva sempre. Sofria com um cansaço de segurar essas cortinas dos olhos, mas, mesmo assim, fazia ainda força para mantê-las abertas. Porém, esse conjunto de beleza, demarcavam uma espécie de monotonia, que suspeitava não ser por hora, mas sim algo inerente a ela.
No momento, seus lamentos, dores e pesos afundavam nas águas gélidas que suspendiam seu corpo. Quando pôde dar um último suspiro neste ar empoeirado, sucumbiu à imersão fria desse oceano sem fim.
Seus cabelos se opuseram a ela, com a pouca densidade que tinham, tentaram boiar onde, por hora, estavam, contudo foram arrastados pela couraça do corpo que descia. O luar como lâmina fatiava o fúnebre e denso azul que interpretava os olhos, a mente, dela, assim, assimilando e misturando esse intervalo de tempo.
Inconsciente, ficou mesmo antes dos olhos se fecharem de asfixia. Não sentia a agonia, seus sentidos, mitos, e mentes estavam presentes em um só. No momento dessa espécie de morte, não martelou nada em sua cabeça. Viveu a pensá-la. Sem remorso mesquinho do caminho. Soube que finalmente viveu. E fez de sua tragédia uma comédia.
Tudo isso constava nesse limiar, por horas.
Sua carne palpitava no pouco movimento que a cortina das marés fazia. Olhou para fora de si. Afirmou a si mesma, que é a mesma coisa de nada, afirmou suas contradições e recitou-as em sua mente.
No próximo momento, já deixou toda essa profundidade de lado, decidiu-se tentar respirar novamente. Contudo, queria não respirar. Porém, não queria morrer. Então irá viver? Quisera poder parar o tempo. Quisera poder existir nesse limiar. Vida adentro. Vida fora. Que essa acabaria com a angústia de toda natureza.
“Não é passível do gênero humano se afirmar?” – Perguntou.
Sabida de que ainda era muito moça para tanta tristeza, e que sua ignorância pairava em deixar as coisas da vida enquanto não chega a morte, que essa tristeza, mantinha sua boca aberta a criação. A polissemia da linguagem martelava-a na mente.
“Não é passível do gênero humano se resumir?” – Ressoou.
Bendita identidade que a afirma e a aprisiona. Contestar a natureza, nesta retórica mesquinha e trágica, de não ter sentido e revoltar-se com isso – não dava sua alforria do sofrer.
“Me resumo a essa profundidade?”
Logo depois, negou tudo o que a identidade poderia tocar-la. Dos pés à cabeça. Extinguiu tudo que lançava-se ao além do bem e do mal que propusera ser resumido no seu conceito de identidade.
Percebeu que moldava-se, sempre que pensava, um plano de estudo da natureza, que não alcançava a mesma, para suprir o que a revolta não conseguia. Então, se negaria ao menos pensar, se calou.
Agora, o silêncio tinha-se um “para quê”. Cansou.
Sua consciência queria o corpo condensado nos estômagos das larvas decompositoras. Já não queria o limiar. Seus dedos magros, com unhas bem cortadas, tentam se mover em tremeliques. Queria deteriorar pela falta de oxigênio no corpo. Se ao menos pudesse viver dignamente, conciliando com a natureza, ou simplesmente quebrando essas correntes da existência que explica-a e desmentir a falácia de uma vida autêntica como liberdade. Espasmos se formavam na região da panturrilha.
Contudo, nessa contradição primordial da liberação do cansaço existencial e a renúncia à natureza, que davam o sentido à palavra suicídio, achou ali um valor à vida. Justamente, queria viver. Logo, afirmava-a. Resumiu-se.
Então, escolheu ser o novo – aquilo que transcende todas as coisas que tem nome, sentido ou afirmava-a. Mas seria exatamente resumida a tudo o'que não tivesse nome, sentido ou negava-a.
Encheu seu peito com o ar desolado e jogou para o alto todo seu devir.
O pelo do seu corpo levantava rapidamente. O “por hora” acabava, ao menos por hora. Em piscadas seus olhos despertam. Seu corpo deitado e ilhado que a maré levou. O tato do arranhar em sua nuca das pedras no chão de areia, contudo era em penas da almofada que segurava suas enxaquecas, a incomodava.
Assim fez, o crepúsculo, sua aurora. Uma luz colidia com o barroco de sua pele, o por hora, finalmente, se tornou por hora, em tons de rosa-laranja, que misturava com o branco do seu teto, e o reflexo das ondas do mar ao céus, que davam sua cor azul escura as poucas nuvens, finalmente os bichos tinham outra angústia. Quando o primeiro animal sentiu-se obrigado a cantar, em dós e fás, ela despertou da sua meditação.
A espuma branca do oceano, que levará antes, transformava-se nos seus lençóis brancos, revestindo-a com cuidado essa vênus magra. Quando finalmente abriu seus olhos, quando sentiu o último arranhar das penas no pescoço, que ultrapassava o emaranhado dos seus cabelos negros e tocava sua pele, quando seu torço ficou em pé e seus cabelos caiam escondendo suas vergonhas, passou a mão no rosto e senti-o cadavérico.
Se deu conta de que não dormiu. Seus olhos estavam abertos o tempo todo.
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Autor:
.Ykaro (
Offline)
- Publicado: 15 de agosto de 2025 11:01
- Comentário do autor sobre o poema: Me deixou cansado escrever esse texto, da mesma forma que exausto me deixou este paradoxo interminável da identidade. Espero não passar esse cansaço sozinho.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 6
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