Quando eu era criança

L.Dutra

Quando eu era criança, eu queria ser um super-herói.
Quando eu era jovem, eu queria ser policial.
Quando eu cresci, eu pude ver a verdade da vida,
pude colocar os pés no chão
e ver que nem tudo que queremos
um dia será real.
Quando eu era criança,
os ventos eram tão suaves
e a brisa era leve e doce.
Quando eu era jovem,
as garotas me faziam palpitar o coração
e corar as bochechas.
Quando eu cresci,
eu comecei a perceber
que nada era de verdade, afinal.
Pude sentir nos pés
o peso da realidade
e enxergar o mundo como ele é.
Não gostei do que vi.
Quando eu era criança,
festejavam meus aniversários
como um culto pagão.
Quando eu era jovem,
eu queria apenas sair correndo
pela porta da frente
e deitar tudo pro chão.
Quando eu cresci,
eu percebi que a maioria das portas
poderiam se fechar
sem ao menos eu me decidir.
Quando eu cresci,
eu queria ser criança.
Quando eu era jovem,
eu queria ser crescido.
Quando eu era criança,
eu queria crescer.
E hoje eu percebi
que tudo que eu quis
foi desejar que o tempo passasse
diante dos meus olhos,
enquanto a vida vivia
e minha existência
lentamente se esvaía
em isolamento e solidão.
Coloquei meus pés no chão
e decidi que o mundo não muda
e que tudo vai ser como é
e como já foi.
Coloquei as mãos no rosto
e suspirei,
pensando que podia mudar,
mas o mundo continuou o mesmo
e eu não mudei.
Afinal,
será que fui eu que cresci
ou o mundo ficou pequeno demais
para mim,
ou para o que eu sinto,
ou para aquilo que eu quero,
ou quem sabe
eu nunca quis nada?
Quem sabe?
Eu sei?
Não sei de nada.
Hoje, quanto mais eu começo a saber,
menos eu desejo crescer.
Volte, doce brisa infanto,
que me encantou
nos momentos de inocência.
Volte, doce vento
que aparava meus cabelos
em dias tão suaves
como algodão.
Por fim,
coloquei os pés no chão
e percebi:
não foi o mundo que ficou pequeno.
Foi apenas eu que cresci,
e percebi que o mundo gira
cada vez mais depressa,
e nossos sonhos,
muitos deles,
serão esmagados
pela roleta do tempo
e não serão nada além
de epifanias
de eternos pensamentos.
Amor, raiva, solidão…
Afinal, tudo isso foi em vão?
Cadê você?
Onde foi aquele garotinho feliz?
Cadê você,
jovem rebelde
e com vontade
de mudar o mundo?
Não sei.
Perdi vocês de mim
e encontrei em mim
tudo aquilo
que desprezei
uma vida inteira.
E agora terei de conviver
com esse fantasma vivo
do que eu nunca quis ser:
uma existência
transparente e pálida,
sem vida,
sem perspectiva,
mas que ainda assim é viva.
E o mundo gira.
O mundo segue girando
e a solidão me acompanhando.
Quando eu era criança,
eu não sabia de nada.
Quando eu era jovem,
eu achava que sabia.
Quando eu cresci,
eu percebi
que continuo
sem saber nada...

- L.Dutra

  • Autor: L.Dutra (Offline Offline)
  • Publicado: 18 de maio de 2025 07:47
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 8
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