Antropomorfismos da morte

Anna Gonçalves

Ela não vem de preto, nem de foice afiada,
mas vem tranquila, serena, de passos leves na madrugada.
ou na alvorada.
Está no café derramado, no telefone que toca à tarde,
na carta não lida, naquele suspiro que ninguém guarde.

Todos os dias a encaramos, sem manto nem fantasia
no amigo que parte de repente, na voz que se cala de um dia,
no colega que some, no parente que vira memória,
e no nosso próprio peito, quando cessa a história.

Mas quem é ela, senão a irmã que ninguém convida?
A que segura nossa mão quando a vida é perdida
e até nas partidas...
Não é monstro, nem sombra, nem fuga da sorte 
apenas o fim do caminho.
E seu nome é Morte.

Ela espera,
paciente,
sem pressa, sem dor.
Afaga o medo, sussurra
Não é o fim, é apenas o amor
que fica quando o corpo já se foi
e não pode ficar.
Eu sou o abraço que te ensina que a vida é voar.

Talvez ela não seja esqueleto, nem treva, nem luto,
mas a dona do porto, a que fecha e faz o trabalho bruto
no seu livro dos dias, com capítulos de alegria e um toque de desespero.

Não por sua parte, mas por parte de nos humanos, do qual não entendemos o seu enredo.

E no fim?

Apenas um "até logo" porque o misto disso tudo
se completa com a morte que faz seu  papel limpo e por inteiro.

  • Autor: Anna Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de abril de 2025 09:58
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 8
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