AH, NOSSA VIAGEM... (Carta).

ZÉ ROBERTO

Minha dileta Pafuncia,

Que os ventos da vida estejam a soprar em tua direção com suavidade e que as horas transcorram plácidas em tua existência. Hoje, tomado por um impulso saudosista, resolvi escrever-te para rememorar nossas peripécias por este vasto mundo, cujas lembranças me enchem de júbilo e riso incontido.

Recordo-me, com um misto de encanto e horror, de nossa incursão pela África, quando nos entregamos ao fascínio de um safari inesquecível. O espetáculo da natureza em seu estado mais puro nos rodeava, e nós, como intrépidos exploradores, sentíamo-nos parte daquela grandiosidade. Lembras-te do festim que nos serviram no hotel, cujo sabor exótico nos pareceu, à primeira degustação, uma iguaria das mais sublimes? Pois bem, ao descobrirmos que havíamos consumido cérebro de macaco, a palidez tomou conta de teu semblante e, não tardaste a passar a noite em uma dança inquieta entre o leito e a latrina. As estrelas daquela terra longínqua foram testemunhas de tua repulsa e da ira que lançaste ao cozinheiro, cujo semblante enigmático me fez crer que se divertia às nossas custas.

E o que dizer daquele inusitado assalto perpetrado por um macaco de habilidades pérfidas? Estávamos nós, absortos, contemplando a magnificência da savana, quando um primata, com destreza digna de um larápio experimentado, aproximou-se sorrateiramente e, num átimo, aproveitando o sopro da brisa que levantara sua - não muito comprida - saia , arrebatou-te a peça íntima, deixando-te entre o pudor e a fúria! Nunca me esquecerei da cena: o símio, vitorioso, brandindo sua conquista qual troféu, enquanto tu, escarlate de indignação, proferias impropérios dignos de uma epopeia.

E ainda, como esquecer nossa incursão a um rio, onde, orientados por nosso guia local, decidimos nos refrescar? O calor abrasador justificava o mergulho, mas o que nos aguardava era algo inusitado. Em dado momento, nosso próprio guia, tambem acalorado, sem cerimônia alguma, despiu-se completamente e adentrou as águas, revelando, sem o menor pudor, sua anatomia avantajada. Vi teu olhar arregalar-se em um misto de espanto e - ouso dizer? - talvez um pingo de admiração. Fingiste cobrir os olhos, mas teus dedos entreabertos traíam tua curiosidade incontrolável. Ah, minha cara Pafuncia, aquele rio guardará segredos que jamais ousaremos confessar! Mas confesse, houvesse ali - Outrosim,  porque haveria de haver, não é? - um pouco de vaselina... 

Se a África nos presenteou com o inusitado, Paris nos envolveu em sua elegância e esplendor. Nossa contemplação da Torre Eiffel foi como um sonho que se materializava; o ícone da Cidade Luz resplandecia ante nossos olhos maravilhados. No entanto, o ápice da experiência foi quando, tu, encorajada pelo entusiasmo, decidiste subir ao topo. E lá fomos nós! Ah, Pafuncia! Quem diria que a brisa gélida e a altura descomunal fariam-te perder o tino? O pânico tomou conta de teu espírito, e, antes que percebêssemos - Porém todos perceberam - , os bombeiros entravam em cena para conduzir-te, qual uma relíquia frágil - Mas nem tão limpa - , de volta à segurança do solo firme. O riso contido dos turistas e seus celulares apontados selaram teu destino digital: um meme que, temo dizer, jamais será esquecido pelo vasto universo da internet.

Ainda lembro de nossas caminhadas pelas margens do Sena, dos cafés charmosos na Boulevard Saint-Germain, onde nos entregamos a doces conversas, especialmente no Café de Flore, cuja aura boêmia e histórica nos envolveu em uma atmosfera de encantamento. Mas nem tudo foram deleites tranquilos, pois foi ali mesmo que aquela sirigaita parisiense (como tu mesmo a chamaste), de modos audaciosos, ousou lançar-me uma piscadela provocante ao passar por nós. Lembro-me bem de teu olhar fulminante e do modo como resmungaste, indignada, sobre a desfaçatez da francesa atrevida. Ah, minha amiga, que seria da vida sem esses pequenos dramas?

Ah, antes que me esqueça, preciso perguntar-lhe: já conseguiste consertar tua dentadura depois daquele infortúnio no Le Procope?  Jamais esquecerei o instante fatídico em que, no meio de animadas conversas, com amigos, tu, ao aplicares uma mordida num galo (Uma coxa dum Cop au vin), ela despencou subitamente, silenciando a mesa e arrancando risadas contidas dos demais convivas. Espero que a tenhas recuperado sem maiores dissabores!

Com carinho e saudades,

Teu sempre amigo,

  • Autor: Zé Roberto (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de abril de 2025 09:22
  • Comentário do autor sobre o poema: Um pouco de humor.
  • Categoria: Carta
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Comentários1

  • Maria dorta

    Um relato criativo e hilariante. Bravo!



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