JULIA E SEU 'CAPÔ DE FUSCA'
Por Zé Roberto
Julia realizou seu grande sonho: abrir seu próprio salão de cabeleireiro.
O espaço não era muito grande, mas como trabalharia sozinha, isso não foi um problema. Aproveitou a estrutura do comércio anterior, fez uma boa limpeza, pintou as paredes, deu uns retoques aqui e ali e começou a atender.
Inicialmente, sua intenção era trabalhar apenas com o público feminino, pois se sentiria mais à vontade. No entanto, como estava começando, acabou aceitando também alguns clientes homens. E não é que o negócio deslanchou?
Só que não exatamente como Julia planejara…
Quase todos os seus clientes eram homens. O boca a boca fez toda a diferença, e logo seu salão virou um sucesso. Aos sábados, a fila era grande, cheia de rapazes ansiosos pelo corte da “moça do capô de fusca”.
— Rapaz, essa mulher corta bem demais! — diziam.
Julia, focada no trabalho, não entendia o motivo de tanto burburinho. Para ela, era simplesmente o reconhecimento de seu talento como cabeleireira. No entanto, percebia risadinhas aqui e ali, cochichos entre os clientes… Mas, atarefada e empolgada com o sucesso, não dava importância.
Uma coisa precisa ser dita: Julia nunca “deu bola” para nenhum de seus clientes. Seu único foco era crescer profissionalmente.
Após um ano de muito trabalho, decidiu expandir o salão! O espaço já estava pequeno para tantos clientes e, quem sabe, com um lugar maior poderia até contratar outra cabeleireira. Esse era seu plano.
Aproveitando o fim do ano, alugou um novo salão, um pouco maior, mas ainda na mesma rua, para não perder a clientela. Dessa vez, fez tudo do seu jeito: móveis novos, cadeiras modernas, utensílios impecáveis… O salão ficou um charme!
O grande destaque era a nova fachada, com um toldo enorme e acionamento eletrônico — o xodó de Julia. Além de bonito, ele permitiria que, nos dias de chuva, os clientes fumantes pudessem se abrigar do lado de fora. Até bancos ela colocou na calçada. Tudo pensado nos mínimos detalhes.
Veio o novo ano. Janeiro passou… e nada.
— Ah, esse Brasil… aqui o ano só começa depois do carnaval — dizia Julia, tentando se tranquilizar.
Mas os dias passavam, e o movimento continuava fraco. A preocupação aumentava.
Hoje, no lugar onde Julia tanto caprichou e investiu, há uma faixa improvisada com os seguintes dizeres:
“ENTREGAMOS PIZZA EM DELIVERI NA SUA CAZA.”
O que aconteceu? Simples: os três cheques que Julia dera para pagar seu “lindo novo toldo” foram devolvidos.
O detalhe? O antigo toldo do salão era, na verdade, um capô de Fusca preso na parede do imóvel — herança da lojinha de autopeças que funcionava ali antes de Julia assumir o ponto.
Sem saber, Julia havia se tornado famosa não pelo seu talento com os cabelos, mas pelo insólito toldo improvisado, que, por ironia do destino, era o verdadeiro segredo do sucesso do seu salão.
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Autor:
Zé Roberto (Pseudónimo (
Offline)
- Publicado: 1 de abril de 2025 12:00
- Comentário do autor sobre o poema: "...só sei que foi assim."
- Categoria: Conto
- Visualizações: 9
Comentários1
Nossa que conto. Com certeza os rapazes queriam um capô de fusca moderno kkkkk. Belo conto. Boa tarde poeta.
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