"AS AVES DO CÉU"
"Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as alimenta."
É uma verdade bíblica, mas veja agora como elas sofrem e necessitam do Pai celestial. Um casal de arara-azul sobrevoa minha rua todos os dias, às 17: 30, grasnando seu grito anasalado em comunhão de monogamia: e sempre de leste para oeste. À meia-noite, de ontem, ouvi uma delas em sentido oposto; depois às três da madrugada de novo os gritos em sentido, também, de oeste para leste. E tive dó pelas suas desorientações noturnas. Alguém as importunou no seu ninho. São Francisco de Assis devia ser acionado com uma prece por qualquer devoto.
Tenho uma empatia imensa pelas aves. Tão inteligentes e laboriosas que são: nas suas relações comunitárias, no zelo para o choco dos ovos, quando elas se torturam até no calor mais escaldante, em que permanecem de bico aberto a representar uma prece por água. E sem clamor. O seu zelo pela pretendida prole, desde o preparo do ninho, supera o capricho humano.
Passo um tempo distraído a observar os pombos que pousam na esquina da minha rua, de tarde. Admiro a habilidade na disposição aerodinâmico dos seus voos. A fiação elétrica ampara os seus pés e, ali, festejam tranquilos o ocaso do dia. Sou mais inclinado ao amor fraternal das aves do que dos próprios cães. Está errado!...Não posso ser ingrato ao melhor amigo do homem.
Meu periquito Ring Neck, não aceita, eu lamento, qualquer carinho. Com seis meses veio da loja com trauma pela preensão de uma mão sobre as costas durante o contato humano.Pois da loja e não do criadouro a ave é apresentada ao comprador de modo agressivo em vez de um: "dá o pé", tão natural para o seu comando. Meu Ring Neck já fala, já o carrego sobre o ombro e se delicia a exprimir sibilos em sinal de vitória sobre um carro que passa, eu imagino...Ou, em vez disso, emite uma articulação ruidosa de frustradas palavras, como numa provável reprimenda. Hoje cedo, a gaiola foi colocada, aberta, sobre uma mesinha, lá fora no quintal. Ele desceu, investigou curioso o jardim. E ao passear pelo cimento beirando a piscina eu o via no ritual de enpinado de asas abertas, bico pra cima, em postura de cortejo amoroso. Depois ele mudou de atitude para agressivo: dava passinhos pra trás, depois seguia para frente com bico a rastejar, igual um touro em via de luta; mas alegre nas elucubracões fantasiosas. Ao vir para o desjejum, saboreou ovo e manga. De repente ele se apresenta com vômitos, diarreia instabilidade motora qual vertigem e de olhos miudos, vidrados; cambaleante despenca do seu apoio na gaiola. Estava em estado semicomatoso. Seria psitacose por Chlamydia psittaci. Aparentemente, não é o caso. São sinais de envenenamento por ingestão de seiva de Rosa-do-Deserto. Foi submetido, através de uma seringa de insulina, à reposição hidrica oral e alimentação compulsória. Dormiu obnubilado. No outro dia, de manhã, ele nos cumprimenta: "oi, tudo bem?" Experimentou uma viagem psicodélica amorosa o meu periquitinho; e envolveu-se numa "má viagem" ( bad trip) por "overdose."
Se ocorreu de ser salvo, São Francisco de Assis com certeza nos intercederá, de bom grado, como samaritanos junto ao Criador, que nos terá bem-vindos, no juízo final.
Tangará da Serra, 10/07/24.
- Autor: Maximiliano Skol (Pseudónimo ( Offline)
- Publicado: 11 de julho de 2024 00:15
- Categoria: Conto
- Visualizações: 10
Comentários1
Ainda bem que seu periquito teve pronto atendimento e tem seus cuidados amorosos. É triste viver enjaulado!
Minha querida Dorta, desejo eliminsr essa tua triste compaixão pelo periquito engaiolado. Ele fora mantido seis meses preso na loja do vendedor, quando, também, lhe cortaram as asas. Aqui em casa a gaiola permanece aberta e ainda tem um anexo para ele se locomover e estar em contato social conosco. Estamos tentando eliminar os traumas adquiridos na loja. No jardim de casa ele não saiu da gaiola: "ele desceu" da gaiola. Descuidei-me e não fui claro nessa situação. A culpa é minha que dei a impressão de ser perverso.
Estamos pressurosos que ele venha a voar ainda breve dentro de casa. Perdão por deixá-la sensibilisada em favor da liberdade dele. Grato, minha querida, por ser sincera no teu comentário como sempre tens sido. Faz parte da tua personalidade. Acho que agora te sentirás mais confortável, assim como eu me sinto em justificar o meu deslize.
Beijos.
Não tens de que te desculpar,poeta amigo. Sei que tens sensibilidade e um coração amanteigado. Feliz esse papagaio por ter_ te encontrado! Abraços.
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