Filho de Samael

Nada Acabou

O que sou,

Senão a névoa das desilusões

Que paira sobre as eras?

O que sou,

Senão o tempo que serpenteia

Imperceptível aos sentidos dos homens,

Tão fúteis, tão inúteis?

O que sou,

Senão o juiz de Deus?

O que sou,

Senão um Deus sem vidas

Ou corações cheios de uma fé cega e infrutífera

A vomitar adoração?

 

A chuva de um velho janeiro

Chegou trazendo um ano novo

Vestido de trapos encardidos,

Fantasia de uma luz sem brilho.

Do chão brotam sepulturas

Onde decompõem as esperanças

E eclodem novas dores

Tão conhecidas que são chamadas pelo nome.

A chuva - tão fria! - chegou como o ponteiro do relógio

Em sua volta universal...

Algo que se move mas não sai do lugar;

Que não é outra coisa senão previsibilidade,

E determina os passos de cada infeliz

Que vagueia, servo ou senhor.

A janela contempla a paisagem de seu único quadro

Esvaziado das cores de um destino

Que era como um pássaro prestes a voar.

Sente-se um perfume trazido de bem longe,

Onde as asas dos sonhos não alcançam,

Mas de onde partem mortais pesadelos.

A própria morte é um reles cão

Que treme de frio e sente fome

Numa terra abundante de pão e maldade.

Criaturas das sombras vilipendiaram os desejos,

Enodoaram doces aventuras

De um anseio inocente.

As águas do rio fizeram-se negras...

Seres rastejantes espreitam no caminho.

E nada acabou.

Nada ficou que merecesse um canto ainda que de dor.

O silêncio veio como a noite,

Como uma claridade tão intensa e insuportável! 

A chuva chegou em passos tão graciosos

Quanto firmes no propósito de dizimar tudo.

Dizimar tudo em nada

Para a sanha de um Deus

Que vive da morte,

De transformar tudo em cinzas.

Em frágeis caixas de feitio único

Batem corações com a força de incontáveis bombas

Explodindo gigantescos seres feitos de imaginação.

Alguns tão fortes

Que são invencíveis.

Mas é fácil encontrar delicadas camélias

Mortas ao longo da estrada,

Esmagadas pela beleza.

O trovão emudeceu

Cansado de ladrar no deserto.

Quão triste é o escorrer da chuva pelas ruas

Como lágrimas derramadas em vão!

Para onde elas escorrem

Não haverá quem as console...

Para onde vai o rio de águas negras

Não há mar que o espera,

Como não há abraço após longa jornada

Do peregrino maldito.

O chão de casa, o amor da mãe tão pobre

Que murchou seu corpo numa labuta sem valor,

Tantas horas de alegrias infrutíferas,

Tudo foi vencido pelo invencível curso da vida,

Pelo invisível e desgraçado fluido que tudo arrasta,

Como a mais letal das enchentes.

Nada ficou que merecesse um canto ainda que de dor.

E nada acabou.

A não ser tudo que respirava

Uma nesga de esperança;

A não ser o alfinete onde o mundo estava pendurado.

Desabou como a chuva;

Desabou como um punhado de panelas barulhentas

Caindo de uma prateleira...

Os sapos que pulam pelo chão encharcado

São as estrelas que caíram,

Abaladas pela explosão de um peito fantasmagórico

Que vaga eternamente iluminando trevas sem fim.

A chuva chegou com sua elegância,

Seu desdém,

Seus olhos de suplicar amor

E esconder segredos de gente convencida.

Chegou espalhando seus pingos de dor e tristeza,

De revolta e ódio,

De um sentimento que Deus ainda não criou o nome.

Difícil descrever o rosto de quem a tudo aniquila...

Difícil suportar a leveza de um vazio que atordoa.

Impossível contar as horas que nunca terminam,

Cercar o tempo que não passa.

Insuportável dialogar com a imaginação

Que foge escorregando por frestas invisíveis.

Pesadelos visitam noturnamente

O sono de quem quer apenas desaparecer,

Evaporar para todo um sempre

Que o esconda para sempre

De toda verdade, ainda que conhecida em detalhes.

A chuva é incapaz de trazer a mentira...

Expõe cada falso sorriso, cada mesquinho interesse.

Nem mesmo o calor da modorrenta estação

Aplaca a gélida aparição.

A ave saturnal fez seu ninho onde ninguém viu

E teceu novas velhas amarguras

Para presentear o velho novo tempo

Que a chuva trouxe.

Tudo é o mesmo.

Nada mudou, apesar de diferente.

Nada acabou

A não ser o que faz sorrir

E o que faz parar de chorar.

Chorar...

Oh, águas amargas que não movem moinhos!

Nada ficou que merecesse um canto ainda que de dor.

E nada acabou.

Comentários1

  • Antonio Olivio

    Lindo e reflexivo!
    Esta chuva metafórica
    tras sucessivos acontecimentos
    Que parece que veio para mudar
    Mas que não muda a essência das coisas
    A mudança vem de algo mais profundo
    Que acho que não está neste mundo de sombras.
    Parabéns Poeta , por trás do nome do pai !!



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