Carlos Tavares

Tentando encontrar meu caminho de volta

Somos episódicos, me vem agora...

Em 75 eu tinha dez

e enxergava o mundo

na altura dos meus olhos

 

minha mãe cuidava do lar

e o meu pai empenhava o seu tempo numa oficina gráfica

Era domingo quando a comida saia mais besta e farta

das panelas da minha mãe;

era domingo quando os meus dias eram mais cheios

e risonhos e coloridos, e meu pai me falava de craques

lendários, dos filmes de flashgordon

e me contava as histórias por traz dos rostos do álbum de família  

 

em 80 eu tinha 15, espinhas e uma paixão impossível

por uma garota que não me dava bola

meu pai fazia serões noturnos para sustentar a família

minha mãe cuidava do lar, de mim e da minha irmã caçula

 

e eu  já enxergava o horizonte um pouco mais alto, eu tinha sonhos

e estava mais familiarizado com os impulsos da natureza

que aprendera a desfrutar secretamente com

as dinamarquesas das revistas proibidas trocadas por

piões de corda e uma mão cheia de bolinhas de gude surradas

no mercado negro dos moleques

 

em 85, repentinamente, eu perdi a inocência

fui apresentado às ruas e às noites, perdi o rumo

e até hoje vago por aí tentando encontrar o

caminho que me leve de volta aos domingos

encantados daquele menino, só para ouvir

minha mãe nos chamar feliz para o almoço

e o meu pai terminar de contar à mesa as

histórias dele de quando moço...

 

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Comentários1

  • Shmuel

    Me regastei em seu primoroso texto poetico!
    Parabéns ao poeta, Carlos Tavares!



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