Solilóquio de uma sombra.

Victor Severo

Não sei bem quando, como e porque morri, mas sou morto de fato, um ser amorfo, feito carrapato, venci a vida para me perder na morte ou vice-versa, fiz a passagem, curta viagem. Perdi a consciência no marasmo da vida, para acordar no pesadelo da morte. Morri sem querer como quase tudo mundo, e descobri em um segundo que havia morrido sem você e que assim seria impossível viver.

E se a vida passa célere, na morte o tempo engatinha para trás, sozinho, sozinho, sozinho, quanta falta você faz. Hoje minha alma é como roupa encardida, esfarrapada, não tenho a quem enganar, só me resta esperar tal qual alma penada que batendo os dentes e roendo as unhas, sofre na escuridão encostada na lápide de seu sepulcro.

Eu procuro por teu amor de olhos fechados, de punhos serrados.

Oh, meu Deus, esqueci que não tenho mais punhos, dentes, unhas...

Na verdade, nada mais tenho, a não ser essa aparência etérea, essa fome de morrer.

Mas acho que ainda tenho um coração que sofre, um cérebro que pensa, mas não consegue entender, como farei para de novo ter você.

Com fome, sem nome, esqueci de todo o passado, vivo-morto abandonado.

Descobri que a morte não existe, e o que é pior, que a vida é eterna.

Mais o pior de tudo, o pior é saber que você está viva, que não morreu ainda, e que de mim já se esqueceu, já me enterrou em suas lembranças. Já retirou o quadro da parede e o jogou em uma mala cheia de antigas roupas que em breve serão doadas para alguma casa de caridade.

E apesar de saber que a morte não existe, eu morro todo santo dia, ou seria toda maldita noite, que nunca acaba, que se renova como ondas salgadas, enfadonhas, eternas. E lhe afagam, lhe afogam sem jamais lhe roubar a consciência.

Eterna, lá vem de novo essa palavra, essa sensação, essa coceira, esse desarranjo intestinal, esse crime que se repete, esse sangue que não para de jorrar, essa culpa, esse truque que disfarçado de mágica, me engana e por ele tenho que pagar, e pagar caro.

E me vem de novo sua lembrança, da saudade nem falo mais pois já faz parte do meu eu, impregna meus pensamentos, engorda cada vez mais esse sofrimento, como corda apertada no pescoço, como a nudez no meio da multidão, uma queda eterna, um frio que não passa, falta de ar, lâmina enferrujada encravada na alma.

Mas como o tolo de persiste na fé infundada, como o louco que encontrou a verdadeira razão, a razão por todos desconhecida, desprezada, e que por isso mesmo foi tratado como pária e abandonado para morrer no deserto, eu acredito no amor, esse amor que talvez nem exista, talvez seja somente fantasia, utopia, um sonho, uma quimera, delírio, desvario, uma esperança vã. Eu que sou lembrança do ontem, hoje não passo de nada, e serei nada amanhã, aceito minha pena, meu destino, essa tortura, essa infinita noite escura com a crença inabalável que um dia serás minha novamente.

  • Autor: Victor Severo (Offline Offline)
  • Publicado: 7 de janeiro de 2021 08:29
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 13
Comentários +

Comentários1

  • Maria dorta

    Uma prosa bela,triste,agoniada...faz sangrar a alma angustiada do poeta. Que esta catarse,seja só expressão de tua arte pois amor,mesmo quando perdido,sumido, não rima com morte! Imagens poéticas fortes. Chapéu!

    • Victor Severo

      Sempre grato pela interação, mais ainda por teres gostado. Um abraço.



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