Saudades,
de um sonho que não se realizou,
de perninhas roliças e bunda de fralda correndo pela sala,
de dentinhos rasgando a gengiva e cabelos crescendo desiguais enfeitando um rosto com olhos bem redondinhos arregalados e atentos,
de risos descontrolados se abrindo as palhaçadas do irmão ciumento mas cuidadoso com aquela pequena jóia.
Saudades até mesmo de noites em claro com choro sem explicação e preocupação de mãe que não suporta mais o cansaço mas segue firme ao cuidar de alguém que só tem o choro como pedido de ajuda até mesmo para o desconforto dos gases.
Me vejo ali ao lado, de joelhos ao chão apoiando aquela mãe, me preparava para estar alí com o pequeno diamante deitada no meu peito, numa poltrona a me balançar para ninar enquanto deixava a mãe descansar um pouco para me render no próximo choro.
Tanto trabalho, tanta doação, tanto esforço que seria recompensado naqueles bracinhos se jogando para o meu colo ao me ver chegar da rua como se eu tivesse passado dias fora, tantas noites sem dormir e levantar como zumbi para trabalhar preocupado em deixá-la em casa mas sabendo que estaria boas mãos e também ficando com ela quando precisasse estar sozinho ao seu lado.
Trabalho que só termina na vida dos pais quando a gente se vai e deixa que eles vivam sem a nossa presença mas sabendo que os deixamos encaminhados para o mundo enquanto continuamos cuidando mesmo que de outro plano.
Saudades dos planos, planos que não passam apenas de vontade e vontade apenas de uma vez na vida de um pai que não se tornará um pois a vontade se foi junto com a mãe, junto com o irmão que também não será mais nem irmão, nem o filho, vontade que não vai mais existir e saudades de alguém que nem vai existir.S
SaudadesMaria Antônia.