Poesia Abandonada

O voo da alma

As pálpebras pesam, o mundo se desfaz, E a gravidade perde o seu poder. Um sopro leve traz a mais pura paz: O corpo começa, enfim, a florescer.

Sem asas de penas, sem ferro ou motor, Apenas o impulso de um doce querer, Desprende-se a alma do chão e da dor, E o teto do quarto se põe a ceder.

No azul profundo, o vento é um abraço, Um rio invisível que guia o voar. Desenho silhuetas no vasto espaço, Contemplo de cima a terra a rodar.

As nuvens de algodão deslizam na pele, O mar vira espelho de luz e fulgor. Não há tempestade que o voo cancele, Pois tudo se acalma no sonho e no amor.

E quando a manhã vem romper o encanto, E o sol de fininho invade o lugar, Fica no peito, em forma de canto, A doce certeza de ainda voar.