Às vezes bastava o começo lento,
as minhas mãos a desenharem-te o contorno,
a minha boca a passear pelos teus pontos de rendição
enquanto me ensinavas o caminho dos teus suspiros.
Línguas que se encontravam sem pressa,
dedos que mergulhavam onde o pensamento já não entra,
e um primeiro arrepio que me percorria inteira
como uma onda alta a quebrar antes do tempo.
Depois começava a verdadeira travessia —
de costas, de lado, inventando norte e sul,
mapas inéditos desenhados por nós na penumbra,
tu por cima a comandar o compasso,
eu por baixo a reger-te sem que soubesses.
Apertava-te com um segredo meu de dentro,
movia os quadris como quem assina o nome na água,
e tu respondias com um ritmo que me entrava fundo —
tão fundo que o tempo esquecia a sua obrigação.
A minha gruta húmida guardava a tua tempestade,
quente, pulsante, pronta para o incêndio final,
e, de novo, chegávamos juntos à mesma margem,
tremendo, rendidos,
duas marés a desfazerem-se no mesmo verso.