Aos olhos do júri da norma,
não há carne, nem alma, nem nome,
veem criatura na moça que se transforma
e uma aberração no novo homem.
Vem a turba com régua e balança,
fiscalizar a certidão do passado:
\"Por que tanta desobediência e mudança?\"
\"Quem era o sujeito que foi registrado?\"
O rapaz, com sua barba e casaco,
enfrenta o escárnio e o olhar que o rejeita,
o mundo insiste em tratá-lo por fraco,
reverso da norma que o povo aceita.
A madame, em seu salto e batom,
esbanja a beleza que a mente tacanha
reduz ao pomo de Adão e à frequência do tom,
com uma maldade que o senso acompanha.
\"Que criatura é essa que passa,
recusando o bilhete de outrora?
Não é homem, nem mulher de raça,
é um bicho inventado agora!\"
Gritam preconceitos na beira
com a bíblia e a lei na calçada,
não aceitam a ideia verdadeira,
tratam vidas como piada.
Fazem deles um circo, um folclore,
um terceiro elemento sem eira,
esperando que o tempo descore
a identidade que é viva e guerreira.
Mas a sátira cai no roteiro
de quem gasta a vida a apontar,
o fiscal de banheiro primeiro
é o único que não sabe amar.