Karolla

Fiscal de banheiro

Aos olhos do júri da norma,

não há carne, nem alma, nem nome,

veem criatura na moça que se transforma

e uma aberração no novo homem.

 

Vem a turba com régua e balança,

fiscalizar a certidão do passado:

\"Por que tanta desobediência e mudança?\"

\"Quem era o sujeito que foi registrado?\"

 

O rapaz, com sua barba e casaco,

enfrenta o escárnio e o olhar que o rejeita,

o mundo insiste em tratá-lo por fraco,

reverso da norma que o povo aceita.

 

A madame, em seu salto e batom,

esbanja a beleza que a mente tacanha

reduz ao pomo de Adão e à frequência do tom,

com uma maldade que o senso acompanha.

 

\"Que criatura é essa que passa,

recusando o bilhete de outrora?

Não é homem, nem mulher de raça,

é um bicho inventado agora!\"

 

Gritam preconceitos na beira

com a bíblia e a lei na calçada,

não aceitam a ideia verdadeira,

tratam vidas como piada.

 

Fazem deles um circo, um folclore,

um terceiro elemento sem eira,

esperando que o tempo descore

a identidade que é viva e guerreira.

 

Mas a sátira cai no roteiro

de quem gasta a vida a apontar,

o fiscal de banheiro primeiro

é o único que não sabe amar.