Francisco Moura

A Realização do Outono

I — O Nascimento

A beleza do nascimento,
O brilho do crescimento,
O amadurecimento imprudente,
Algo que deixa a alma ardente.

A primavera traz consigo a vida,
Uma esperança há muito prometida.
Pequenos seres começam a florescer,
Sem conhecer o que significa perder.

Nos braços de uma mãe encontram abrigo,
Crescem sem conhecer o perigo.
E cada vida que acaba de nascer
É mais uma razão para permanecer.


II — A Passagem do Tempo

A vida passa como o vento,
Um sopro e estamos na próxima fase.
Quantos respiros damos
Sem sabermos qual será o último?
O último, com o seu sabor amargo.

O verão chega sem pedir licença,
Trazendo consigo a inocência.
Os dias passam, os filhos crescem,
E os momentos vividos desaparecem.

Mas quem diria que o tempo,
Que nos ensina a viver,
É o mesmo que, em silêncio,
Nos ensina a perder?


III — Os Outonos Prematuros

Quantas guerras e causas imprudentes
Roubam vidas inocentes?
Mais balas distribuídas
Do que famílias contentes.
Uma destruição primitiva.

Quantas mães esperam por filhos
Que nunca mais regressarão?
Quantas despedidas ficaram por dizer,
Quantos abraços por acontecer?

Há vidas que nem chegam ao outono,
Interrompidas antes de amadurecer.
Há primaveras que acabam cedo,
E verões que não chegam a nascer.

O mundo continua a girar,
Indiferente a quem ficou.
E quem antes tinha tudo
Aprende a viver com o que restou.


IV — A Chegada do Outono

E então chega o outono,
Com os seus ventos e tons dourados.
As folhas, antes cheias de vida,
Descem dos ramos que as tinham guardado.

Uma a uma, começam a cair,
Sem que ninguém as possa impedir.
E os ramos que antes as abraçavam
Ficam vazios, sem as sentir.

A árvore permanece imóvel,
Enquanto o vento leva o que criou.
E por mais que estenda os seus braços,
Não recupera aquilo que perdeu.

Será que compreende a despedida?
Será que alguma vez a aceitou?
Ou pergunta, a cada outono,
Porque foi ela quem ficou?


V — O Inverno da Mãe

O inverno chega lentamente,
E encontra a árvore despida.
Sem os filhos que antes carregava,
Mas ainda cheia de vida.

Permanece firme perante o frio,
Com os ramos erguidos para o céu.
Como uma mãe que procura, em silêncio,
Tudo aquilo que o tempo lhe levou.

E quando a primavera regressa,
Novas folhas voltam a nascer.
Mas nenhuma das que chegaram
É igual às que viu desaparecer.

E assim começa outro ciclo,
Outra esperança, outro verão.
Outro outono que se aproxima,
Outra inevitável separação.

Não importa quantas vezes floresça,
Nem quantas primaveras conheceu.
Por mais vidas que veja nascer,
Nenhuma devolve o que perdeu.


VI — A Realização

Centenas nasceram,
Milhares cresceram.
E de todos os que partiram,
Nenhum a levou consigo.

Passaram-se anos,
Décadas, talvez séculos.
Mudaram as folhas,
Mudaram os ventos.
Mas a árvore permaneceu.

E foi então que compreendi,
Ao ver as folhas espalhadas pelo chão,
Que o outono não era apenas
Uma mudança de estação.

Pois enquanto as folhas
Conheciam o fim da vida,
A árvore conhecia a dor
De sobreviver a cada despedida.

E compreendi, por fim,
O que nunca antes tinha pensado:

Para cada folha, existe apenas um outono.
Para uma árvore, existem centenas.