G. Mirabeau

O PIOR DE TUDO

O melhor de tudo

- É entender!

Pena seja o pior de tudo...

 

O pensar contínuo

A nos deter,

A nos lançar fora

Do futuro;

O Saber-Destino

A iludir,

Comprimindo a vida

Contra o muro

Da desesperança

Do escuro...

Que correr se pode

Só no fio

Da navalha funda,

Descer rio

Da vingança, lança,

- Desafio! –,

Nos atiram a novos

Desatinos

A vibrar em nós

- Os velhos sinos! -:

O verter do amor

Em gota a gota

Ao mar infernal

Tarde procura

O sentir pavor

Preso à nossa boca.

O grito animal

É toda loucura

Que é possível ser,

Que é preciso ter,

Deve nos conter,

Vivo nos manter

E se transmutar

Ao que fora antes,

Ao que fora enquanto

- Quando fora tanto! –,

Onde não pudera

Tudo enquanto muito,

Muito, muito antes,

- Antes do meu pranto! –

Logo após a cura

Da loucura pura

À feliz demência

- Doce congruência! –

Da compreensão

- Falta de essência! –

À razão humana

Onde tudo emana

Dentro falsa chama,

Onde o amor reclama

Ser feroz demente

A viver de gente,

Produzido ardente

A espalhar semente

De consumo-lucro

De comprar premente,

De vender contente

Todos os desejos,

- Tudo que se sente! -

Tudo que ensina

Transformar-se gente,

Exibir-se gente

Pela roupa linda

Que terei ainda

No passar veloz

Do meu albatroz

Do ser poderoso,

Ser terrível atroz

Na inteligência

Escrava-Ciência

Do todo da parte

Da pretensa arte

Desestruturada

Para seja nada,

Seja inexplicada,

Servir ao deleite

Das amas de leite

Dos beócios néscios

- Tolos paramécios! –

Pois não sentem ou vibram

As alegorias,

Lindas fantasias,

Farta melodia,

Falsa profundeza

Da pouca beleza

Cujos traços retos

Levam à cornucópia

De ouro perdido...

- Arte-fotocópia!

 

Douto consenso

Dos homens-ciência,

Clara visão

Das questões sociais,

Dão a medida

E o comportamento

Ditam aos sérios

Pobres normais;

Seres exímios

No lodaçal,

Ídolos ocos

De vendaval

São devorados

E postos em sal

Pra livrar-nos

Do nosso mal:

Mal aceitar-se

Ser tão normal,

Ignorar-se

Tolice tal,

Quebrar o barco

No temporal

Da descoberta

Simples final:

- Só se aprende o virtual!...

 

O pior de tudo

- É entender!

Mesmo sendo o melhor de tudo...