Versos Discretos

Carnal

 


A penumbra recorta o relevo exato da tua ausência de pressa,
onde o ar se torna denso e o toque antecipa o desregramento.
Há uma liturgia silenciosa na forma como os corpos se decifram,
entre o cálculo do instante e a vertigem do que se consome.

Seus lábios, tingidos de um mel fingido e lento,
sussurram promessas que prolongam a agonia do gozo.
Pois a arte suprema de incendiar o desejo
reside em tencionar os sentidos até que o outro se renda,
sabendo que a iminência da queda é o mais puro deleite.

E quando a caneta enfim desenha a geometria do íntimo,
o tempo suspende o curso e a respiração se faz arquitetura.
Tuas mãos alimentam a corda invisível que nos sustenta,
um fôlego profundo e febril que nos garante a âncora
por mais vinte e quatro horas de maré mútua.

Erguendo-me sobre a tua carne que pulsa e responde,
encontro no fundo dos teus olhos a mesma imolação.
Nenhum segundo a mais de trégua para o rito inevitável:
o pacto antigo gravado à revelia na pele e na boca,
onde toda a gravidade do mundo se desmancha em nós.