Hoje escrevi para o meu amor.
E, pela primeira vez, percebi que escrever sobre alguém é uma tarefa injusta com os próprios sentimentos. As palavras possuem limites, enquanto aquilo que sinto parece não conhecer fronteiras. Tentei descrever seus olhos, mas descobri que não existem adjetivos capazes de traduzir o que acontece dentro de mim quando os encontro. Tentei escrever sobre seu sorriso, mas nenhuma combinação de letras conseguiu reproduzir a paz que ele me proporciona.
Então continuei escrevendo, não porque estivesse encontrando as palavras certas, mas porque meu coração precisava encontrar algum lugar onde pudesse repousar tudo aquilo que carrega.
Dizem que os anjos conhecem os segredos da criação, que contemplam a grandeza de Deus e testemunham os mistérios da eternidade. Mas naquela noite, enquanto eu escrevia, um deles desceu para observar minhas folhas.
Leu algumas linhas, percebeu minha expressão e perguntou:
— Homem, por que te ocupas tanto em escrever sobre alguém que, assim como tu, também é passageiro neste mundo?
Levantei os olhos e respondi:
— Talvez seja justamente por isso, meu caro anjo. Porque somos passageiros. Porque os dias não voltam, os instantes não se repetem e ninguém recebe a promessa de permanecer para sempre. E, diante dessa existência tão breve, encontrar alguém com quem desejamos compartilhar o tempo que nos resta talvez seja uma das experiências mais extraordinárias que Deus nos permite viver.
O anjo inclinou a cabeça e perguntou:
— Mas o que encontraste nela que te faz desejar dividir tua existência?
Respirei profundamente.
— Não sei se encontraria uma resposta que pudesse satisfazer tua curiosidade. Ela não é extraordinária porque não possui defeitos, nem porque nasceu para corresponder às minhas expectativas. É extraordinária porque é ela. Porque existe em sua maneira de olhar, de sorrir, de falar e até de permanecer em silêncio alguma coisa que me alcança em lugares que eu sequer sabia que existiam dentro de mim.
— Então amas aquilo que ela te faz sentir?
Sorri.
— Também. Mas seria pequeno demais reduzir meu amor àquilo que recebo dela. Amar alguém é descobrir que a felicidade de outra pessoa passa a ter importância para a nossa própria existência. É compreender que o mundo não gira ao redor dos nossos desejos e, ainda assim, encontrar beleza em fazer espaço para os sonhos de alguém. É desejar que ela floresça, mesmo sabendo que nem todas as estações da vida serão favoráveis.
Fiz uma pausa e continuei:
— Quero conhecer suas fases, não apenas suas versões mais bonitas. Quero compreender suas contradições, respeitar seus limites, aprender suas linguagens e descobrir os motivos por trás de seus silêncios. Não quero amar somente a mulher que sorri para mim, quero também aprender a cuidar daquela que, em determinados dias, talvez não encontre motivos para sorrir.
O anjo permaneceu pensativo.
Depois perguntou:
— E se um dia ela mudar? E se o tempo levar embora aquilo que hoje tanto admiras?
Olhei para minhas mãos e respondi:
— Tudo muda, meu caro. O rosto muda, os corpos envelhecem, os sonhos amadurecem e até aquilo que hoje julgamos indispensável pode adquirir outro significado amanhã. Mas talvez seja esse o verdadeiro desafio de amar: não se apaixonar eternamente pela mesma fotografia, mas aprender a reconhecer a pessoa mesmo quando o tempo modificar todos os seus contornos.
Não quero que ela permaneça igual para continuar sendo amada. Quero ter a oportunidade de conhecê-la em todas as mulheres que ainda se tornará.
Quero que o tempo passe por nós sem que nos transforme em estranhos. Que possamos olhar um para o outro depois de tantas tempestades e reconhecer que, apesar de tudo, ainda existe um lugar onde escolhemos permanecer.
Outro anjo aproximou-se e perguntou:
— E nunca temes entregar tanto de ti a alguém?
Respondi:
— O amor exige coragem, porque não existe entrega verdadeira sem vulnerabilidade. Quem ama oferece ao outro a possibilidade de conhecer partes que o mundo jamais alcançará. Mostra suas fraquezas, revela seus medos e permite que alguém se aproxime de lugares que passaram anos protegidos.
Mas não desejo perder minha identidade para pertencer a alguém. Desejo construir uma existência em que duas pessoas inteiras possam caminhar juntas, sem que uma precise diminuir para que a outra cresça.
Quero ser amado sem precisar deixar de ser quem sou. E quero amá-la sem jamais tentar apagar aquilo que a torna única.
O anjo então perguntou:
— E o que esperas do futuro com essa mulher?
Pela primeira vez, sorri sem precisar procurar palavras.
— Não espero uma vida perfeita. A perfeição é uma expectativa humana que frequentemente nos impede de reconhecer a beleza do que realmente temos. Espero uma vida verdadeira.
Quero os domingos preguiçosos, as refeições improvisadas, as conversas que começam sem assunto e terminam revelando a alma. Quero as pequenas discussões que nos ensinam a compreender um ao outro, os planos que exigirão paciência, as conquistas que terão gosto de vitória compartilhada.
Quero construir uma casa que não seja apenas feita de paredes, móveis e janelas, mas de histórias. Um lugar onde a paz não dependa da ausência de problemas, mas da certeza de que não precisamos enfrentar tudo sozinhos.
Quero um dia olhar para ela diante de Deus e compreender que aquela mulher não está ali para representar o fim da minha procura, mas o início de uma escolha que pretendo renovar enquanto tiver consciência para fazê-la.
O primeiro anjo, que até então permanecera em silêncio, aproximou-se e perguntou:
— E se Deus te conceder muitos anos ao lado dela, o que farás quando a juventude já não existir?
A pergunta me atravessou.
Imaginei nossos cabelos perdendo a cor, nossos passos diminuindo o ritmo e nossas mãos carregando as marcas de tudo aquilo que vivemos. Imaginei fotografias antigas espalhadas pela casa, lembranças de viagens, dificuldades vencidas e sonhos que um dia pareciam distantes.
Então respondi:
— Quando a juventude partir, quero continuar reconhecendo nela a mulher por quem me apaixonei. Talvez já não tenha o mesmo rosto que conheci, mas terá algo muito mais precioso: a história que escrevemos juntos.
Quero ser o homem que ainda procura sua mão no meio da noite. Que ainda percebe quando ela está triste, mesmo quando diz que está tudo bem. Que ainda encontra beleza em observá-la fazendo as coisas mais simples.
Quero que, quando a vida finalmente nos apresentar a velhice, possamos olhar um para o outro e perceber que não desperdiçamos o privilégio de ter existido juntos.
O anjo sorriu e perguntou:
— E já lhe disseste tudo isso?
Baixei os olhos.
— Não. Existem sentimentos que ainda estou aprendendo a traduzir. Mas há algo que desejo dizer diante de Deus, quando ela estiver vestida de branco e nossas mãos estiverem unidas por uma promessa.
Não prometerei que nunca haverá lágrimas, porque seria uma mentira. Não prometerei que todos os dias serão ensolarados, porque conheço a natureza da vida. Não prometerei ser um homem sem falhas, porque conheço minhas próprias limitações.
Prometerei algo mais difícil: que não farei do amor uma palavra bonita pronunciada apenas nos dias felizes. Que procurarei ser digno da confiança que ela depositar em mim. Que não confundirei intimidade com posse, nem amor com obrigação. Que respeitarei sua liberdade e jamais deixarei de enxergar a pessoa que existe por trás da mulher que amo.
E, acima de tudo, pedirei a Deus sabedoria para que meu amor não seja apenas intenso, mas também bom.
Naquele instante, os anjos ficaram em silêncio.
Um deles finalmente perguntou:
— Agora compreendo por que escreves tanto. Mas ainda não compreendo por que te chamas de bobo poeta.
Olhei para as folhas espalhadas sobre a mesa e sorri.
— Porque sou um homem que conhece a brevidade da vida e, mesmo assim, insiste em escrever sobre a eternidade. Sou alguém que não pode impedir o tempo de passar, mas sonha em transformar cada instante ao lado dela em uma lembrança que mereça permanecer. Sou apenas um mortal tentando encontrar palavras para algo que talvez tenha nascido muito antes de eu aprender a escrever.
E talvez seja essa a maior tolice de um poeta: acreditar que algumas palavras podem explicar o inexplicável.
Mas não escrevo porque acredito que a poesia seja maior que o amor. Escrevo porque, às vezes, o amor é tão grande que precisa transbordar por algum lugar.
Naquela noite, terminei minha carta.
E, antes de guardá-la, escrevi algumas últimas linhas:
\"Meu amor, não sei quantos amanheceres Deus ainda reservará para mim. Não sei quantas estações atravessaremos, quantas mudanças nos aguardam ou quantas vezes a vida exigirá que sejamos mais fortes do que imaginávamos.
Mas, se existe algo que desejo profundamente, é que, entre todos os capítulos que ainda não conhecemos, encontremos um ao outro em cada página.
Não quero ser apenas uma lembrança bonita na sua história. Quero ser presença, construção, aprendizado e permanência. Quero participar dos seus dias sem roubar sua individualidade, conhecer seus sonhos sem tentar escrever por você e caminhar ao seu lado sem jamais esquecer que também tenho a responsabilidade de cuidar dos meus próprios passos.
E, quando um dia o tempo nos perguntar o que fizemos com a vida que nos foi concedida, espero que possamos responder: vivemos. Amamos. Erramos, aprendemos, perdoamos, construímos e, sobretudo, não deixamos de escolher um ao outro.
Porque, no fim, talvez o amor não seja encontrar alguém com quem a eternidade pareça possível. Talvez seja compreender que o tempo é limitado e, ainda assim, encontrar alguém por quem cada segundo merece ser vivido.\"
Fechei a carta.
E, pela primeira vez naquela noite, não senti necessidade de escrever mais nada.
Porque algumas poesias terminam quando a tinta acaba.
Mas aquela...
Aquela eu ainda precisaria de uma vida inteira para terminar.