Mervi

A realidade das ruínas.

Sentada estou, esperando as vozes ficarem mais baixas ou simplesmente um milagre acontecer.

 

Aquela que me gerou sempre falava pras pessoas que eu era uma perfeição, um milagre. Mas nunca foi como tal.

 

Tenho medo de dormir. Os sonhos me perseguem com imagens de um demônio horrendo que a agride, que a espanca até que não lhe reste sequer um suspiro.

 

A casa suja, bagunçada, não tenho tempo pra organizar nem a montanha de bagunça na minha cama.

 

Sempre preciso por algo dentro de casa, o que não é meu papel.

 

Meu irmão foi embora dessa merda. Conseguiu escapar desse inferno.

 

Eu continuo aqui.

 

Os mesmos dias, os mesmos pensamentos, as mesmas preocupações. Nunca há espaço para coisas comuns: um romance adolescente, uma preocupação com a escola.

 

Depois da escola, brinco com a fumaça,

dou risadas, e vou pra casa com um fone.

 

Indo pra mais uma noite de horrores, pela viela de sempre. O fone novamente nos ouvidos, e aquela vontade de sair daquela merda toda.

 

Tento não me envolver, mas acabo sempre nos mesmos becos, com alguns segredos no bolso e fugindo de sombras que parecem conhecer meu nome.

 

Peço a Deus que me ajude. Que me tire daqui. Que me livre de tudo aquilo que me consome, inclusive de mim mesma.

 

Eu não consigo fechar os olhos e pensar em descansar. Minha própria casa não parece um lugar onde posso simplesmente dormir em paz.

 

Ela chega, eles brigam. Eu torço pra não ouvir sons de tapa, porém ouço algo parecido.

 

Entro no banheiro, me sento e suspiro...

 

Será que um dia eu saio desse inferno?

 

Será que um dia essa dor finalmente vai embora?

 

Eu não queria essa dor dentro do peito, não queria.

 

Levanto-me. Sinto-me pequena.

 

Uma mulher pequena diante de problemas grandes demais.

 

A realidade é muito maior do que aquilo que o corpo consegue enfrentar.

 

A música nos fones está alta. Talvez alta o suficiente para abafar o mundo, mas nunca para silenciá-lo por completo.

 

Saio do banheiro.

Vou até o quarto.

E ela está lá.

 

Com ele.

 

E, por um instante, sinto que há coisas que meus olhos jamais deveriam ter precisado testemunhar.

 

Aquele homem, cuja presença parece ocupar todos os cantos da casa.

 

Deito-me.

 

E peço a Deus, aos orixás, aos Exus, às energias, ou até mesmo ao diabo, que não permitam que minha mente se perca de vez.

 

Porque já não sei a quem pedir socorro.

 

Só sei que estou cansada.