Ayalah VerĂ´nica Berg

EU, A ESPECTADORA

 

O abismo chama pelo meu nome.
E eu finjo que respondo.
 
Olho os que passam.
São bonecos de carne.
Brilham no vazio que habitam.
E o vazio lhes parece o paraíso.
 
Seu maior pecado?
A mais doce das ignorâncias:
A fé na própria importância.
O riso que escapa de um salão sem portas.
 
Eu poderia salvá-los.
Não quero.
Toda salvação é um vício dos fracos.
A lucidez é uma lâmina que não corta.
 
Deixo que sonhem.
A noite é minha.
Um toque que não é carne, mas é carne.
O êxtase de saber que a queda é certa.
 
Que a esperança é o último vício.
E eu, a espectadora dos vícios alheios.
 
Que amem suas prisões.
A jaula que brilha.
A mentira que aquece.
A ferida que se chama futuro.
 
No centro do que desaba, assisto.
O absurdo não me fere.
Me basta.
É a única paz que conheço.
 
E quando a última luz se apagar,
não haverá silêncio.
Haverá meu riso, seco e final.
Um estalo de dedos no escuro.
 
A beleza disso?
Tudo desaba.
E eu nem preciso empurrar.
Só aponto.
 
A noite não é o fim.
Quando eu me deitar
sobre a última mesa posta,
não haverá julgamento.
 
Haverá um perfume.
É do meu corpo.
E a morte será só eu.
 
 
Eu, a Espectadora
 de Ayalah Verônica Berg