O ventre da noite
engoliu a cidade.
O amargo da rua
debaixo da língua,
o frio cravado nos ossos.
Confundiu o abismo
com o infinito.
Fez-se irmão dos lobos,
beijou a boca de cinzas.
Fez da ilusão sua coroa.
Os sonhos apodreciam nas calçadas.
Havia um deus morrendo em seu peito,
pedindo água,
e ninguém ouviu.
No silêncio do corpo,
entre o sangue e a ferrugem,
o cheiro de asfalto molhado no roxo:
a cidade mastiga
a carne do menino.