Thessa

Ana

Ana se casou bem, todos diziam…

Quando namorava, recebia grandes buquês, chocolates e jantares românticos. Era o homem perfeito, sempre feliz, sempre alegre, não restavam dúvidas.

Ana era uma mulher inteligente, dizia que sabia escolher, dizia que sabia dizer, mas chorava — uma coisa não anula a outra, chorava porque era mulher, chorava porque era frágil e gostava de ser, até certo ponto.

Ele não, ele calmo, Ana gostava, odiava gritaria. Ana não teve dúvidas, Ana comprou casa com ajuda do noivo, Ana sobrava futuro, era tudo lindo, dava gosto de ver a família Margarine estampada em seus sonhos de estimação. “Dois filhos! Dois filhos, cachorro e peixe!” O noivo buscava Ana no trabalho, comprava lanches, fazia suas vontades, era certo: Ana se casaria bem.

Ana se casou, ele é um bom homem, mas não era perfeito. Era um dia comum de faxina, o suor grudado no corpo, o cansaço de quem está com o avental sujo de molho de tomate e espaguete em algum lugar do cabelo. Estava coberta de bagunça, da bagunça da vida. O marido chegou, o bebê chorando, a panela de pressão fazendo barulho sobre o fogão sujo. Ana, ainda com a roupa do trabalho, esperava o marido chegar para receber um afago, um carinho como de costume.

“Como foi o dia?” — foi pesado, muito trabalho. Essa resposta era diferente, nada de flores. Ana, com voz sutil queria o afeto de costume, não queria briga, mas naquela bagunça não deu. Ana falou alto, falou demais, Ana era sensível! A briga começou, nenhuma palavra ofensiva, mas era melhor ter gritado um palavrão. Com ele era sempre assim: “atiro pra matar”, “direto e reto”, acertava no alvo, no homem mau, no descompensado, na esposa.

Bala de palavras. Ana lembrou-se das flores; o tiro doeu, doeu muito, abriu sua cabeça cheia de lembranças que não deveriam mais voltar. O bebê chorou, correu até a mãe. Ana apertou seu menino, não conseguia encarar o marido, abraçou o menino agarrado em suas pernas na tentativa de sentir carinho, porque era tudo o que ela queria ali.

Ana não queria um tiro que dói a alma, Ana queria só um beijo, um afeto, um carinho…

Está tudo bem, falei besteira.