felicity for now

Fallacia Cordis

Amarro teus cadarços aos meus  
Retenho-Te junto a mim  
Meus dedos frágeis temem carecer de força para Te reter  
Oculto as chaves que Te pertencem, para que não partas  
Repouso a cabeça em Teu peito  

Aferro-me às Tuas vestes

Quem poderia apartar-me de Ti?  
Se não eu mesma, quem ousaria fazê-lo?

Cubro os espelhos para que não Te vejam,  
zelosa, até o ciúme, da Tua presença  
Estalo os pés contra o chão, pranteio, suplico e me desfaço,  
receosa de Teu silêncio

O coração mais rejeitado,  
o mais humilhado,  
injustiçado, condenado ao Calvário,  
prometeu que jamais me deixaria

Ainda assim, cubro-me para que não vejas minha nudez,  
temendo que, ao sondares o que em mim se oculta,  
voltes de mim o Teu rosto  
Desde o princípio, escondo-me entre as árvores,  
envergonhada daquilo que jamais Te foi oculto

Volto à casa dos espelhos encobertos  
Nunca saíste de lá  
Ergui muralhas para obstar à Tua partida,  
cega à deserção que eu mesma perpetrava

Não há outro artífice do meu declínio  
senão eu mesma  
E, contudo,  
quem afinal poderia separar-me do Teu amor?

Retorno ao Teu peito  
Aferro-me a Ti uma vez mais  
Não me interrogas acerca das chaves escondidas,  
nem me pedes contas das muralhas que ergui  
Depositas um beijo no alto da minha cabeça

Espera-me em casa

E, acaso eu ouse partir outra vez,  
suplico-Te:  
resgata-me do lodo da incredulidade  
Purifica-me da febre peçonhenta do meu orgulho,  
que desconfiou de Ti,  
inebriado pela tolice de confiar em mim