Rebecca

Horrorizando os Horrorizados

Na escuridão,
alguma consciência trabalha.
Não pensa — mastiga.
Os pensamentos cruzam o fundo,
lentos,
seres sem olhos roendo
o próprio rumo.
 
Eu julgava estar vazio.
Era só o inferno fazendo hora
para o horror terminar de se instalar.
 
Agora sei:
o eu não é real,
é resto acumulado
depois do esforço.
Sob a pele,
sombras se articulam
com a paciência
de quem não precisa vencer.
 
Não temos medo.
Somos o sangue que as mantém.
E esta nova lucidez —
que surpresa —
não abre nenhuma porta:
apenas mostra quem,
no escuro,
já escolheu por nós
quando cessar.