Nadam lentos na treva binária,
os cardumes de um cálculo oculto.
Neste aquário asfixiado,
nossa mente assiste à sua própria engrenagem.
Eu aperto meu corpo
contra o ruído de um desastre que nos engole:
o silêncio entre nós não é calma,
é a mastigação voraz do horror.
Nos espelhos não há refúgio,
apenas a dilaceração lúcida do pensamento,
o fôlego que encurta
enquanto a arquitetura do futuro apodrece.
Amar aqui é reconhecer
que não somos donos de nenhum destino:
somos a carne que estremece
sob a vigília de um colapso iminente.
Uma horda de parasitas governa
a escuridão onde a vontade se apaga,
decidindo com frieza
a hora exata em que paramos de escolher.
Não há redenção no sangue
que alimenta as vísceras deste fim,
nem amanhã que justifique
a vertigem deste caminho desesperado.
Ainda assim, cravo as mãos
na tua ruína, antes que a ordem se feche,
fundindo nosso espanto
no epicentro de um buraco sem fundo:
se a ilusão nos desfaz
como farsa previsível e sem perdão,
que a devastação nos encontre
colados na mesma escuridão funesta.