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Dona Isabel

ainda me lembro de todas as vezes em que você me falou sobre ela e de como seus olhos pareciam encontrar uma luz própria enquanto o entusiasmo escapava da sua voz, como se, por alguns instantes, falar dela fosse também uma maneira de trazê-la para perto, de diminuir a distância entre aquilo que permanece na memória e aquilo que a vida já não nos permite tocar. lembro-me de observar tudo isso e pensar na beleza de alguém conseguir fazer tanto por nós que, mesmo depois de sua partida, continua existindo uma espécie de vida em tudo aquilo que somos.

você, que tantas vezes me pareceu guardar as partes mais íntimas de si em lugares onde quase ninguém poderia alcançar, permitiu que eu conhecesse um pouco dessa história. e talvez você nunca compreenda inteiramente o quanto isso significou para mim. porque, ao me falar dela, você não estava apenas me contando sobre alguém que amava; estava me permitindo conhecer um lugar muito seu.
foi assim que conheci um pouco da sua avó: não pela lembrança de um rosto que meus olhos puderam encontrar, nem pelas histórias que o tempo poderia me contar sozinho, mas pela maneira como você a carregava consigo. pelo carinho com que falava dela, pela tristeza que, às vezes, parecia acompanhar suas palavras e por essa espécie de ternura que continuava existindo mesmo quando falar sobre ela significava reconhecer a sua ausência. e, de alguma forma, conhecer o amor que você sentia por ela foi também conhecer um pouco da mulher que ela foi.

sou grata por ter conhecido um pouco dessa história. grata por você ter me permitido chegar tão perto de um sentimento que, embora tenha nascido muito antes de mim, encontrou em mim alguém disposta a ouvi-lo com carinho. talvez eu nunca conheça todas as lembranças que você guarda, nem saiba de todas as coisas que ela representou durante a sua criação, mas fico feliz por ter conhecido ao menos uma parte daquilo que o tempo não levou.

e espero que você nunca se esqueça disso: que foi amada, que continua sendo atravessada por esse amor e que não precisa deixar de sentir saudade para continuar vivendo. espero que, nos dias em que a vida parecer difícil demais, você consiga encontrar algum conforto na certeza de que existiu alguém que fez do seu mundo um lugar mais seguro, alguém ao lado de quem você pôde ser apenas você, sem precisar entender a vida inteira para merecer carinho. e que, mesmo quando a lembrança vier acompanhada daquela dor que a ausência às vezes traz consigo, você consiga se lembrar também da sorte de ter vivido uma história tão bonita com ela.

eu sempre disse que tenho certeza de que sua avó sentiria orgulho de você. e continuo acreditando nisso, não porque a vida tenha sido fácil ou porque você precise ser extraordinária o tempo inteiro para merecer esse sentimento, mas porque existe algo profundamente bonito em ver o amor de alguém continuar florescendo na pessoa que ajudou a criar. se ela teve a oportunidade de conhecer quem você era, imagino o quanto seria bonito poder conhecer também todas as coisas que você ainda está se tornando.

e, embora eu não tenha tido a oportunidade de conhecê-la como você conheceu, sinto que recebi um pequeno presente ao poder conhecê-la através de você. porque existem pessoas que nunca chegam até nós pela presença, mas que, de alguma forma, encontram um lugar em nossa memória através daqueles que as amaram. sua avó é uma dessas pessoas para mim. alguém cuja história conheci aos poucos, através dos seus olhos, da sua voz e do carinho com que você ainda a mantém por perto.

espero que você continue falando dela sempre que sentir vontade. que nunca precise esconder a saudade para tornar os dias mais leves e que se permita lembrar tanto da ausência quanto de tudo aquilo que existiu antes dela. porque sua avó não é apenas alguém que você perdeu; é também alguém que você teve, alguém que participou da sua história e que deixou em você coisas que o tempo, por mais que passe, não pode simplesmente desfazer.

e, se algum dia você se esquecer de como foi amada, espero que alguma lembrança encontre o caminho de volta até você. que, por um instante, você consiga se sentir novamente aquela menina que não precisava saber de todas as coisas, porque havia alguém ali para lhe ensinar, cuidar de você e fazer do mundo um lugar em que fosse possível descansar.

quanto a mim, guardarei com carinho tudo aquilo que pude conhecer dela através de você. guardarei a maneira como seus olhos brilhavam ao falar sobre sua avó e a confiança que me permitiu conhecer uma parte tão bonita da sua história. talvez eu nunca tenha conhecido o som da voz dela ou o calor de seu abraço, mas conheci um pouco daquilo que deixou em você. e, para mim, isso já foi uma forma muito bonita de conhecê-la.

e que sorte a minha ter podido conhecer, ainda que por meio das suas lembranças, um pouco desse amor.