Kauane de Moraes

Sem explicação

Amar, simplesmente amar.

Sem que o amor se justifique, sem que produza alguma coisa, sem que sirva para preencher o espaço ridículo entre duas pessoas.

Amar aqui, onde o café esfria, o elevador demora e alguém vai embora sem terminar a frase.

Amar além, se houver além, se o além não for apenas esta vontade absurda de que alguma coisa permaneça.

Amar sem ter razão. Eis o problema.

O mundo exige documentos, provas, garantias, uma assinatura reconhecida em cartório para que dois corações possam trabalhar em paz.

Eu, não.

Quero amar como quem abre a janela sem saber se há primavera. Como quem escreve uma carta e não pergunta o endereço. Como quem, diante da morte, ainda acha necessário regar as plantas.

Amar aqui. Amar depois. Amar o que não me quer, o que não me entende, o que sequer desconfia de que existe.

E se Deus perguntar para quê, se o tempo cobrar resultados, se a vida, essa síndica severa, vier reclamar do desperdício, direi apenas:

amei.

Não fiz disso um destino, não construí monumentos, não salvei ninguém.

Mas, por um instante, entre o absurdo de nascer e o absurdo de desaparecer, houve em mim uma coisa sem utilidade e absolutamente necessária.

Amor.

E não sei se isso basta.

Mas também não sei o que mais poderia bastar.