Capítulo 1 — Antes de tudo, Kelly
Primeiramente, gostaria de me apresentar. Meu nome é Kelly. Sim, um nome tão simples, mas que carrega um significado imenso para mim. Não sei exatamente o que meus pais pensaram quando o escolheram, mas sei que eles gostaram tanto dele que decidiram que seria esse o nome da filha que estava por vir.
Minha história começa com um casal, Sandra e Denilson, que já tinha quatro filhos. Minha mãe imaginava que a família permaneceria daquele jeito, com os filhos que já tinha nos braços e a vida seguindo seu curso. Até que, de repente, descobriu que estava grávida de mim.
Não sei dizer o que ela sentiu naquele instante. Talvez surpresa, talvez medo, talvez uma mistura de sentimentos que só uma mãe consegue explicar. Mas há algo de que não duvido: fui amada desde o início, mesmo antes de saber que existia um mundo inteiro à minha espera.
Meus pais deixaram tudo para trás e foram morar em uma pequena comunidade chamada Varre-Vento. Confesso que, até hoje, não sei ao certo o que esse nome significa. Às vezes, fico imaginando o que passou pela cabeça deles quando decidiram recomeçar a vida em um lugar onde não conheciam ninguém, levando consigo cinco filhos pequenos e uma coragem que talvez nem eles soubessem que tinham.
Hoje, quando penso nisso, me pergunto: eles eram corajosos ou simplesmente loucos? Talvez um pouco dos dois. Afinal, começar do zero já não é fácil; fazer isso longe de tudo o que se conhece, com cinco crianças para criar, é uma história que merece ser contada.
Nossa casa era simples, feita de palha, e o esteio que sustentava parte daquela pequena morada era uma bacabeira. Já imaginou? Uma árvore fazendo parte da estrutura do lugar que chamávamos de lar. Para muitos, talvez fosse apenas uma casa humilde. Para mim, era o cenário de uma infância que, mesmo com suas dificuldades, deixou marcas que o tempo não conseguiu apagar por completo.
Havia também o nosso fogão a lenha. Ah, como eu odiava ter que fazer fogo! Naquela época, eu não imaginava que, um dia, até mesmo essas pequenas coisas poderiam se transformar em lembranças importantes. Na infância, a gente não sabe que está vivendo momentos que, no futuro, vai querer recuperar. Apenas vive. E talvez seja justamente por isso que algumas lembranças se perdem pelo caminho.
Confesso que existem partes da minha história que não consigo descrever. Algumas cenas parecem ter desaparecido, enquanto outras permanecem guardadas em algum lugar dentro de mim. Há coisas de que me lembro com clareza, outras que conheço apenas porque alguém me contou. E existem aquelas sobre as quais só consigo imaginar.
Às vezes, penso em como a nossa mente guarda e perde lembranças. É curioso perceber que podemos esquecer detalhes de uma época tão importante de nossas vidas, enquanto uma imagem, um cheiro ou uma simples palavra é capaz de nos transportar de volta a um lugar que julgávamos perdido.
Talvez eu nunca consiga recuperar todas as lembranças da minha infância. Talvez algumas permaneçam para sempre escondidas no silêncio da memória. Mas decidi escrever sobre aquilo que ainda vive em mim, sobre as histórias que ouvi e sobre os pequenos detalhes que consigo reunir.
Este livro nasce assim: de lembranças incompletas, de sentimentos que resistiram ao tempo e da vontade de conhecer um pouco mais da menina que fui.
Antes de contar quem me tornei, preciso voltar ao lugar onde tudo começou. Preciso falar de Sandra e Denilson, da nossa casa de palha, da bacabeira que servia de esteio, do fogão a lenha que eu tanto odiava e daquela pequena comunidade chamada Varre-Vento.