Toria

O UNIVERSO DE SENTIREM EM EXCESSO

Nunca tive talento para a superfície. Há em mim uma urgência de viver, uma curiosidade quase infantil pelas coisas e essa mania de encontrar universos inteiros onde muita gente enxerga apenas detalhes.

 

Gosto do que me atravessa, das músicas que parecem conhecer partes minhas que nunca revelei, das conversas que atravessam a madrugada, das pequenas descobertas que fazem um dia comum parecer extraordinário.

 

Gosto de sentir, de prestar atenção ao que quase passa despercebido, de guardar palavras que alguém diz sem intenção de eternizá-las, de encontrar beleza em coisas que talvez não tenham sido feitas para durar.

 

Quero me apaixonar perdidamente, amar com todas as minhas forças, conhecer alguém e me surpreender com a quantidade de mundo que pode existir dentro de uma pessoa. Quero sentir aquele frio na barriga que desorganiza os pensamentos, a saudade que aparece no meio de uma tarde qualquer, a felicidade desproporcional de receber uma mensagem esperada.

 

Quero viver os encontros por inteiro, sem estar o tempo todo pensando no momento da despedida. Ter histórias para contar, lembranças que me façam rir sozinha e nomes que, mesmo depois de muito tempo, ainda carreguem um pouco de luz.

 

Sei que sentir profundamente também significa estar exposta às tristezas. Nem tudo floresce, nem todo amor permanece, nem todas as expectativas encontram lugar na realidade. Ainda assim, não consigo olhar para a possibilidade da dor e considerá-la um motivo para viver com menos encanto.

 

A vida já é um acontecimento tão improvável.

 

Há um mundo inteiro acontecendo lá fora, e eu quero conhecê-lo com os olhos de quem ainda se surpreende. Quero mudar de ideia, descobrir novos lugares, ouvir uma música pela primeira vez e sentir aquela vontade de escutá-la outras cem vezes. Quero me perder em pensamentos, rir de coisas bobas, cultivar sonhos improváveis e encontrar motivos para gostar dos dias mais comuns.

 

Talvez a intensidade more justamente nisso: na capacidade de perceber que a vida não acontece apenas nas grandes ocasiões, mas também naquilo que quase ninguém se lembra de guardar.

 

Nunca desejei atravessar o mundo sem ser tocada por ele.

 

Prefiro carregar algumas lembranças e cicatrizes a não ter vivido o suficiente para construí-las. Prefiro a beleza de um sentimento verdadeiro à comodidade de nunca me deixar surpreender.

 

Há tanta coisa para sentir, tantos lugares para descobrir, tantas formas de amar que ainda desconheço. Seria uma pena passar por tudo isso com o coração distraído.

 

Quando penso na pessoa que desejo ser, não imagino alguém que nunca se machuca, que sempre sabe a hora de partir ou que mantém todos os sentimentos cuidadosamente organizados.

 

Imagino alguém que continua se encantando, que não perde a delicadeza de se importar, que encontra poesia no inesperado e que, mesmo conhecendo as imperfeições da vida, não deixa de reconhecer a sua beleza.

 

Quero olhar para trás e encontrar uma existência cheia de coisas que me fizeram sentir viva: amores, descobertas, despedidas, recomeços, músicas, lugares e pessoas que, por algum tempo ou por toda a vida, fizeram parte de mim.

 

E, acima de tudo, entre tantas coisas que poderia desejar para os anos que ainda me restam, há uma que quero conservar: essa maneira tão minha de sentir o mundo por inteiro, como se até as coisas mais pequenas merecessem ser vividas com o coração desperto.