O Banquete da Hipocrisia
Ingrata, como a fome que nunca sacia,
a caneta pinta o que escondem os olhares da plateia,
entretida pelo teatro que a cobiça patrocina
e cega pelo luxo que a própria miséria financia.
Entre aplausos, quem não semeia exige o mel da colmeia,
enquanto a desgraça de alguns serve de banquete
a quem, de gravata, a saboreia.
Desapego-me do silêncio,
pois é nele que a injustiça se refugia,
e onde uns choram as perdas,
outros brindam à sua ceia.
A verdade anda nua,
mas já nem nos causa surpresa;
quando a mentira se torna hábito,
a consciência perde a firmeza.
E a boca, de tanto mentir,
faz da falsidade um motor que já nem trava,
enquanto a sociedade aplaude
aquilo que, em silêncio, a escraviza.
No fim, até a nobreza se desconfia:
há quem vista a bondade por fora
e esconda a podridão que por dentro o guia.