PoetadeMarte

O Banquete da Hipocrisia

O Banquete da Hipocrisia

 

Ingrata, como a fome que nunca sacia,  
a caneta pinta o que escondem os olhares da plateia,  
entretida pelo teatro que a cobiça patrocina  
e cega pelo luxo que a própria miséria financia.

Entre aplausos, quem não semeia exige o mel da colmeia,  
enquanto a desgraça de alguns serve de banquete  
a quem, de gravata, a saboreia.

Desapego-me do silêncio,  
pois é nele que a injustiça se refugia,  
e onde uns choram as perdas,  
outros brindam à sua ceia.

A verdade anda nua,  
mas já nem nos causa surpresa;  
quando a mentira se torna hábito,  
a consciência perde a firmeza.

E a boca, de tanto mentir,  
faz da falsidade um motor que já nem trava,  
enquanto a sociedade aplaude  
aquilo que, em silêncio, a escraviza.

No fim, até a nobreza se desconfia:  
há quem vista a bondade por fora  
e esconda a podridão que por dentro o guia.