KDUBORGES

O tempo e sua ironia

 

O tempo é esse velho senhor que nunca se atrasa, mas também nunca espera, anda de mãos dadas com o relógio, mas ri da nossa pressa, porque sabe que, no fundo, não é ele quem corre — somos nós.

Dizem que ele cura, e é verdade, só não avisaram que, enquanto cicatriza uma ferida, ele nos rouba a juventude, é um médico que cobra caro; devolve a paz, mas leva embora o frescor da juventude.

O tempo também é um artista caprichoso, pinta rugas como quem assina quadros, borda cabelos brancos como se fossem fios de sabedoria  ou, quem sabe, de teimosia.

No fundo, ele sabe que não há remédio contra sua obra; todos somos tela de sua arte.

Filosofar sobre o tempo é quase uma insolência, afinal, ele já existia quando ainda não sabíamos contar, e continuará existindo quando formos apenas pó.

Tentamos domesticá-lo com agendas, alarmes, calendários.

Mas o tempo nos observa de cima do palco, sorrindo, enquanto seguimos acreditando que o controlamos.

E a grande ironia é esta: passamos a vida correndo atrás do futuro, lamentando o passado, e esquecemos que o tempo só se deixa tocar no presente.

O agora é a única moeda que temos, mas insistimos em gastá-la com ansiedade e saudade.

Talvez o segredo esteja em parar de lutar contra ele e deixar que o tempo seja tempo, e nós sejamos apenas viajantes em sua correnteza.

Porque, se não podemos vencê-lo, podemos ao menos brindar com ele: um gole de vinho, um riso demorado, um abraço sem relógio.

No fim, o tempo não é inimigo nem aliado.

É apenas o palco onde dançamos nossa breve coreografia.

O resto é vaidade.