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Nas entrelinhas do teu silêncio

Eu comprei uma passagem para te ver…

E não foi por impulso,

nem por uma fantasia passageira.

Foi porque acreditei que existia uma vontade mútua,

uma conexão genuína,

um sentimento que, embora recente,

parecia encontrar eco no teu coração.

 

Para mim, aquela viagem significava mais

do que quilômetros desenhados no mapa.

Era transformar palavras em presença,

expectativas em realidade

e a saudade antecipada na descoberta de um abraço.

Era atravessar a distância para descobrir

se o que florescia nas entrelinhas

também teria raízes na realidade.

 

Mas, de um tempo para cá,

tenho sentido você mais distante.

E não me refiro à falta de tempo,

pois conheço tua rotina e compreendo tuas responsabilidades.

Falo daquela distância que não precisa de quilômetros,

porque nasce dentro de um silêncio,

quando o carinho perde a espontaneidade,

a atenção se torna escassa

e os gestos já não aquecem como antes.

 

É como se uma janela que permanecia aberta

começasse a se fechar diante de mim,

sem que eu soubesse se foi o vento,

o tempo ou a tua própria vontade

que mudou a direção das coisas.

 

E isso me inquieta…

Não sei se algo mudou em teu coração,

se outra pessoa surgiu em teus caminhos,

se uma antiga história voltou a florescer

ou se o que sentias por mim perdeu a intensidade.

 

Não quero transformar suposições em sentenças,

nem permitir que minha imaginação

escreva finais para uma história inacabada.

Mas também não posso ignorar

aquilo que minha sensibilidade percebe

e minha razão insiste em questionar.

 

Talvez eu tenha enxergado um oceano

onde existia apenas um pequeno riacho.

Talvez tenha atribuído profundidade a algo passageiro

ou acolhido como promessa

aquilo que nunca chegou a ser pronunciado.

 

Mas nunca fui falsa ao demonstrar interesse,

nem menti quando disse que queria te conhecer.

O que nasceu em mim não foi encenação,

nem um capricho vestido de sentimento.

Foi algo verdadeiro,

ainda que eu desconheça

se encontrou em você a mesma morada.

 

Eu demoro tanto para me permitir sentir…

Meu coração não distribui chaves a qualquer pessoa,

porque aprendeu, entre cicatrizes e despedidas,

que nem toda mão que bate à porta

pretende permanecer do lado de dentro.

 

Sou cautelosa porque conheço o preço de reconstruir

aquilo que alguém deixou em ruínas.

E, quando finalmente baixo as muralhas

que levei tanto tempo para erguer,

o medo sussurra nos corredores da minha alma...

será que, mais uma vez,

estou caminhando sozinha em direção a alguém?

 

Porque, para mim, sentir nunca foi apenas

querer um corpo por perto.

A atração pode acender uma chama,

mas é o cuidado que a mantém acesa.

É querer saber como foi teu dia,

compreender teus silêncios,

decifrar tuas inquietações

e ser abrigo quando o mundo se tornar tempestade.

 

Era encontrar, na imensidão de alguém,

um pequeno porto seguro onde eu também pudesse ancorar.

Era descobrir que, mesmo depois dos naufrágios da vida,

ainda seria possível encontrar calmaria

na presença de outra pessoa.

 

Mas me diz, meu bem,

o que acontece quando alguém que parecia casa

começa a ter o gosto de uma despedida?

O que farei com tudo aquilo

que ainda sabe o caminho até você,

quando o coração permanece à porta

e o pensamento já não sabe se deve partir?

 

Há algo que preciso que você compreendaa. 

lealdade, respeito, carinho, reciprocidade e sinceridade

são tesouros inestimáveis para mim.

 

Não são palavras para adornar um discurso,

mas as raízes que sustentam a maneira como me relaciono.

Lealdade é uma escolha consciente...

respeito é reconhecer o valor do coração alheio;

carinho é a linguagem que aproxima duas almas;

reciprocidade é o encontro espontâneo de duas vontades..

e sinceridade é a luz que impede a verdade

de se perder nos labirintos da dúvida.

 

Eu estou conhecendo apenas você.

Não existem outras pessoas disputando minha atenção.

Foi em você que escolhi investir meu tempo,

minha disponibilidade e a vontade genuína de me aproximar.

 

Enquanto escolho conhecer você,

não quero manter outras portas abertas

por medo de que a nossa não se abra.

Isso não significa que você me deva exclusividade

se nunca estabelecemos esse compromisso,

nem que tenha a obrigação de sentir o mesmo.

Significa apenas que minhas atitudes

procuram caminhar de mãos dadas com meus valores.

 

Não quero cobrar flores de um jardim....

que talvez você não tenha intenção de cultivar.

Mas também não quero continuar regando sozinha

uma terra sem saber se nela existe vontade de florescer.

 

Porque até as coisas mais bonitas perdem o viço

quando lhes falta cuidado,

e até um coração disposto a compreender

se cansa de traduzir sozinho

um idioma que deveria ser compartilhado.

 

Eu sei que a rotina cansa

e que existem dias em que as responsabilidades

nos roubam até a disposição para falar.

Não espero perfeição, disponibilidade constante

ou promessas bordadas em palavras bonitas.

Espero honestidade e coragem

para revelar quando algo muda dentro de ti.

 

Porque, quando a crise chegou

e precisei de alguém com quem conversar,

você foi a primeira pessoa

para quem meu pensamento correu.

Meu coração procurou tua voz

como quem procura uma luz em um corredor escuro.

Quis compartilhar minhas inquietações,

encontrar acolhimento

e sentir que havia alguém com quem eu poderia contar.

 

Talvez você nem imagine

o que significa procurar justamente

quem nos transmite segurança

e descobrir que, naquele instante,

a ponte que imaginávamos existir

não nos permitiu atravessar.

 

Não quero idealizar você,

mas descobrir se existe disponibilidade emocional,

se há vontade genuína de aproximação

e se podemos construir algo

sem que um precise implorar

pelo que o outro oferece espontaneamente.

 

Às vezes, uma mensagem diferente,

um carinho que já não vem

ou uma ausência que se prolonga

fazem nascer perguntas que jamais desejamos formular.

 

Então, meu bem, me responde..

 

O que verdadeiramente você sente por mim?

 

Ainda existe em você a vontade de me conhecer?

Você ainda deseja que eu vá ao teu encontro?

A ideia de estarmos frente a frente

ainda desperta em você a mesma curiosidade?

 

O que estamos construindo tem significado para você

ou sou apenas alguém que começou a desenhar um futuro

em uma tela na qual talvez você

nunca tenha pretendido pintar?

 

Por favor, não me responda com o silêncio

se ainda existe algo que precisa ser dito.

E, se já não existe, não tenha receio de me contar.

 

Prefiro a contundência de uma verdade

à crueldade de uma esperança indefinida.

Prefiro uma dor que tenha nome

a uma dúvida que se multiplica

em mil possibilidades dentro da cabeça.

 

A incerteza é uma espécie de neblina...

não nos permite enxergar o caminho,

nem compreender se estamos perto ou longe do destino.

E eu não quero me perder nela....

 

Não quero me sentir usada,

nem acreditar que fui importante apenas enquanto conveniente.

Não quero que minha sinceridade seja confundida com ingenuidade,

nem que minha intensidade seja interpretada

como ausência de amor-próprio.

 

Sou uma mulher que sente profundamente,

mas também sou alguém que merece consideração.

Posso compreender tuas circunstâncias,

respeitar tuas escolhas

e aceitar que teus sentimentos sejam diferentes dos meus.

 

O que não quero é permanecer

em um vínculo sustentado por uma única vontade,

tentando manter acesa uma chama

que talvez já não encontre abrigo

no coração de quem a despertou.

 

Se ainda existe vontade,

talvez possamos aprender de novo,

não a ser quem éramos no começo,

quando a novidade coloria os dias,

mas duas pessoas mais conscientes,

dispostas a conhecer a realidade para além das expectativas.

 

Talvez possamos descobrir

que uma conexão verdadeira não exige perfeição,

mas presença, diálogo e disposição;

que o afeto não precisa ser uma fogueira que consome tudo,

mas uma chama constante que aquece sem ferir.

 

E, se nossos caminhos já não apontam

para a mesma direção,

que ao menos exista dignidade na despedida.

Que não transformemos carinho em ressentimento,

nem permitamos que a ausência de respostas

apague a beleza daquilo que um dia sentimos.

 

Eu não sei o que o amanhã nos reserva.

Não sei se essa passagem me levará

ao encontro de alguém que também deseja me ver

ou se precisarei aceitar

que algumas histórias são como flores de estação:

chegam para nos encantar,

mas nem todas foram feitas para permanecer.

 

Ainda assim, não me arrependo

de ter sentido vontade de te encontrar.

A coragem de me permitir conhecer alguém

não deveria se transformar em vergonha

apenas porque o desfecho permanece incerto.

 

Mas preciso saber se continuo caminhando

em direção a uma possibilidade real

ou se estou tentando alcançar

um horizonte que recua a cada passo.. .

 

Se ainda existe algo em teu coração,

quero conhecer a verdade que guardas atrás dos olhos.

Se não existe mais,

quero seguir sem precisar inventar respostas

para o teu silêncio.

 

Não quero que você fique por pena,

por obrigação ou por medo de me magoar.

Quero que fique se realmente desejar,

se houver vontade de me conhecer,

de me encontrar e descobrir

o que podemos ser um para o outro.

 

Por isso, te peço,

com a vulnerabilidade de quem sente

e a maturidade de quem deseja compreender...

não me diga aquilo que vai me tranquilizar por algumas horas.

Não me mantenha perto por receio de me perder

se, no fundo, já não deseja me encontrar.

 

Diz a verdade,

mesmo que ela desfaça as expectativas

que construí em silêncio.

Mesmo que me faça chorar

por tudo aquilo que imaginei viver contigo.

 

Porque posso recolher meus sentimentos,

reorganizar meus planos

e aprender a conviver com uma ausência.

O que não quero é continuar entregando o melhor de mim

a uma possibilidade que talvez exista

somente no território dos meus sonhos.

 

Não sei se essa história ainda tem capítulos a serem escritos,

se nossas vontades voltarão a se encontrar

ou se tudo ficará guardado naquela gaveta da memória

onde depositamos as coisas

que um dia nos fizeram acreditar.

 

Mas sei que fui sincera no que senti,

leal na maneira como escolhi te conhecer

e respeitosa com aquilo que imaginei

que estávamos construindo.

 

E, acima de tudo,

gostaria de receber de você

a mesma sinceridade que ofereço.

 

Só me diga a verdade, meu bem....

 

Não quero decifrar eternamente

os hieróglifos do teu silêncio.

Quero saber se ainda existe vontade,

se ainda existe carinho,

se ainda existe um caminho

que faça sentido percorrermos juntos.

 

Porque, por mais que a poesia

consiga transformar a dor em palavras,

há perguntas que somente a verdade

de quem está do outro lado

pode responder.

 

O que verdadeiramente você sente por mim?