tem dias em que o coração acorda em paz
e, de repente, sente tudo outra vez.
é estranho como um segundo
pode abrir uma porta
que a gente levou anos para fechar.
quando penso em nós,
não é o desejo que me visita primeiro.
é a falta.
aquela ausência que se senta ao meu lado
e conhece todas as histórias
que eu tento esquecer.
porque amar nunca foi só querer um corpo perto.
era querer saber como foi o seu dia,
entender seus silêncios,
ser abrigo quando o mundo pesasse.
era encontrar um lugar em você
onde eu também pudesse descansar.
mas me diga, meu bem,
o que acontece quando alguém que era casa
começa a parecer despedida?
e se amanhã você deixar de existir
nos pequenos detalhes da minha vida,
o que faço com tudo aquilo
que ainda sabe o caminho até você?
eu nunca menti quando disse que te amava.
talvez tenha errado tentando parecer forte,
talvez tenha escondido a tristeza
atrás de palavras que não eram minhas.
e, sem perceber,
fui dormir tantas vezes com a saudade
que acordei abraçada à própria dor.
a nossa rotina também cansou,
eu sei.
até as coisas bonitas perdem o brilho
quando ninguém cuida delas.
mas ainda penso que, se houvesse vontade,
poderíamos aprender de novo:
não a ser quem éramos,
mas duas pessoas melhores
tentando não ferir aquilo que sentem.
então, por favor,
não me responda com o silêncio
se ainda existe alguma coisa aí dentro.
não precisa prometer eternidade,
nem jurar que nunca vai embora.
eu só queria conhecer a verdade
que você guarda atrás dos olhos.
e escute uma coisa:
eu nunca quis vencer você.
nunca fui sua adversária,
nem quis transformar nosso amor
numa disputa em que alguém precisa perder.
eu só queria que, no fim de tudo,
você entendesse:
eu não queria ter razão.
eu queria ter nós.