Toria

BECO SEM SAÍDA

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Há dias em que o mundo permanece intacto, as flores conservam sua cor, os relógios cumprem seus ofícios e nada, absolutamente nada, parece justificar tamanha dor.

Ainda assim, amanheço em ruínas.

Com os olhos cansados de um pranto que sequer chegou a escorrer, e uma tristeza de procedência duvidosa que se instala à mesa como uma velha conhecida que ninguém se lembra de convidar.

É curioso, confesso. Não houve funeral, carta de despedida, nem sequer uma catástrofe digna de registro. A vida, em sua habitual indiferença, segue oferecendo pequenas gentilezas, enquanto minha mente prepara o mais solene dos enterros.

Enterra possibilidades antes do nascimento, profana alegrias ainda por acontecer, converte um gesto em presságio, uma dúvida em sentença, um simples talvez em evidência de tudo aquilo que há de perecer.

Oh, que criatura insolente é o pensamento! Veste-se de luto, empunha um castiçal e percorre os corredores da consciência anunciando desgraças que sequer foram convidadas para o baile desta existência.

E eu, que nada perdi naquela manhã, passo o dia inteiro de luto. Eu, que não fui abandonada, despeço-me de pessoas imaginárias. Eu, que não conheço o amanhã, já sofro as suas piores notícias.

Há uma espécie de perversidade nessa inclinação para o abismo: a mente ergue o cadafalso, pronuncia a sentença e, ao fim do espetáculo, ainda exige que eu agradeça por ter sobrevivido a mim mesma.

Tentei argumentar com a razão. Apresentei-lhe fatos, provas, testemunhas. Disse-lhe que a casa continua de pé, que ainda há café na cozinha, que o sol atravessou as cortinas e que ninguém anunciou o fim do mundo.

Ela ouviu tudo com notável compostura e respondeu com uma nova desgraça inteiramente inventada.

Que excelência em sua crueldade. Que talento para a devastação. Não necessita de tempestades, basta-lhe uma tarde cinzenta e a minha desafortunada imaginação.

E assim me encontro: no fundo de um poço sem história, sem carrascos, sem culpados, sem sequer uma razão convincente que justifique o meu estado.

Olho para cima e há luz. Sei que há luz. Posso até descrever-lhe a cor, a delicadeza com que toca as paredes, a promessa que repousa em sua existência.

Mas saber que existe uma saída não significa possuir forças para alcançá-la.

E talvez essa seja a parte mais cruel: não estar perdida por falta de caminhos, mas sentir-se incapaz de caminhar; não ter o coração partido, mas vê-lo sangrar por antecipação; não sofrer uma tragédia, mas viver como se a vida inteira fosse uma tragédia em preparação.

Que desgraça tão pouco aristocrática, a minha. Nem sequer tenho um vilão a quem culpar. Apenas uma mente de péssimos modos, uma alma vestida de melancolia e esta deplorável mania de transformar o nada em funeral.

E, no entanto, dói.

Dói sem pedir licença, sem apresentar credenciais, sem respeitar a lógica ou o decoro. Dói com a inconveniência de uma visita que chega antes do horário, instala-se na sala e passa a noite inteira criticando os móveis.

Talvez amanhã eu desperte melhor. Talvez o café tenha o mesmo gosto, as cortinas filtrem a mesma luz e a vida continue sendo esta coisa banal, tão absurdamente comum, que a minha tristeza não consiga encontrar um único argumento razoável para permanecer.

Mas, nesta noite, não.

Nesta noite, o meu pensamento é um casarão vitoriano abandonado, repleto de escadarias que não levam a parte alguma, espelhos que me devolvem versões funestas e portas que se fecham sempre que tento recordar que nem todo presságio é destino.

E eu caminho por seus corredores, de camisola branca, pés descalços, uma vela trêmula entre os dedos, procurando o monstro que me assombra.

Até compreender, com um horror quase cômico, que não há monstro algum à espreita.

Sou eu, apenas eu, fazendo da minha própria cabeça o lugar mais triste do mundo.

E o pior de todos os becos sem saída é aquele em que a porta permanece aberta, o caminho continua livre, o mundo não nos declarou guerra, mas alguma coisa dentro de nós insiste em jurar que já não há para onde ir.

Há dias em que o mundo permanece intacto, as flores conservam sua cor, os relógios cumprem seus ofícios e nada, absolutamente nada, parece justificar tamanha dor.

Ainda assim, amanheço em ruínas.

Com os olhos cansados de um pranto que sequer chegou a escorrer, e uma tristeza de procedência duvidosa que se instala à mesa como uma velha conhecida que ninguém se lembra de convidar.

É curioso, confesso. Não houve funeral, carta de despedida, nem sequer uma catástrofe digna de registro. A vida, em sua habitual indiferença, segue oferecendo pequenas gentilezas, enquanto minha mente prepara o mais solene dos enterros.

Enterra possibilidades antes do nascimento, profana alegrias ainda por acontecer, converte um gesto em presságio, uma dúvida em sentença, um simples talvez em evidência de tudo aquilo que há de perecer.

Oh, que criatura insolente é o pensamento! Veste-se de luto, empunha um castiçal e percorre os corredores da consciência anunciando desgraças que sequer foram convidadas para o baile desta existência.

E eu, que nada perdi naquela manhã, passo o dia inteiro de luto. Eu, que não fui abandonada, despeço-me de pessoas imaginárias. Eu, que não conheço o amanhã, já sofro as suas piores notícias.

Há uma espécie de perversidade nessa inclinação para o abismo: a mente ergue o cadafalso, pronuncia a sentença e, ao fim do espetáculo, ainda exige que eu agradeça por ter sobrevivido a mim mesma.

Tentei argumentar com a razão. Apresentei-lhe fatos, provas, testemunhas. Disse-lhe que a casa continua de pé, que ainda há café na cozinha, que o sol atravessou as cortinas e que ninguém anunciou o fim do mundo.

Ela ouviu tudo com notável compostura e respondeu com uma nova desgraça inteiramente inventada.

Que excelência em sua crueldade. Que talento para a devastação. Não necessita de tempestades, basta-lhe uma tarde cinzenta e a minha desafortunada imaginação.

E assim me encontro: no fundo de um poço sem história, sem carrascos, sem culpados, sem sequer uma razão convincente que justifique o meu estado.

Olho para cima e há luz. Sei que há luz. Posso até descrever-lhe a cor, a delicadeza com que toca as paredes, a promessa que repousa em sua existência.

Mas saber que existe uma saída não significa possuir forças para alcançá-la.

E talvez essa seja a parte mais cruel: não estar perdida por falta de caminhos, mas sentir-se incapaz de caminhar; não ter o coração partido, mas vê-lo sangrar por antecipação; não sofrer uma tragédia, mas viver como se a vida inteira fosse uma tragédia em preparação.

Que desgraça tão pouco aristocrática, a minha. Nem sequer tenho um vilão a quem culpar. Apenas uma mente de péssimos modos, uma alma vestida de melancolia e esta deplorável mania de transformar o nada em funeral.

E, no entanto, dói.

Dói sem pedir licença, sem apresentar credenciais, sem respeitar a lógica ou o decoro. Dói com a inconveniência de uma visita que chega antes do horário, instala-se na sala e passa a noite inteira criticando os móveis.

Talvez amanhã eu desperte melhor. Talvez o café tenha o mesmo gosto, as cortinas filtrem a mesma luz e a vida continue sendo esta coisa banal, tão absurdamente comum, que a minha tristeza não consiga encontrar um único argumento razoável para permanecer.

Mas, nesta noite, não.

Nesta noite, o meu pensamento é um casarão vitoriano abandonado, repleto de escadarias que não levam a parte alguma, espelhos que me devolvem versões funestas e portas que se fecham sempre que tento recordar que nem todo presságio é destino.

E eu caminho por seus corredores, de camisola branca, pés descalços, uma vela trêmula entre os dedos, procurando o monstro que me assombra.

Até compreender, com um horror quase cômico, que não há monstro algum à espreita.

Sou eu, apenas eu, fazendo da minha própria cabeça o lugar mais triste do mundo.

E o pior de todos os becos sem saída é aquele em que a porta permanece aberta, o caminho continua livre, o mundo não nos declarou guerra, mas alguma coisa dentro de nós insiste em jurar que já não há para onde ir.