Ao primeiro toque do sino ancestral, Estremece o tecido do espaço e do tempo, Um eco de ferro, sagrado e mortal, Que vibra na carne, no vácuo e no vento.
Não é só o bronze que canta na torre, É o peso do cosmo a curvar-se na dor. A cada badalo, uma estrela se escorre, E o fôlego do mundo fraqueja no ardor.
São os sinos do fim, da passagem e do abalo, Cujo som rasga a noite em frequências de luz, Onde a gravidade se rende ao seu estalo, E o próprio infinito se dobra e traduz.
E quando o metal finalmente estremece, Abertos são os portais da escuridão, E o vasto oceano de almas se aquece, Na última rota da transmutação.
Elas vão, flutuando em cascatas de poeira, Desprendidas da terra, do corpo, do lar, Cruzando a poeira cósmica, ligeira, Sussurros de névoa a navegar.
Não há dor na jornada, nem peso nos passos, Pois o sino, ao rachar as barreiras dos céus, Esculpia o caminho por entre os espaços, Conduzindo as essências aos braços de Deus.
E o universo, abalado em sua estrutura, Silencia em respeito ao mistério maior: A vida que parte, sutil e pura, Tornando-se luz.